
Particularmente, não tenho muito do que reclamar por falta de leitores e acessos, como podem ver abaixo. Mas, ainda assim, vou reclamar…

O Recanto é uma viela da quebrada da internet. Mais de vinte leituras em um texto, sem divulgá-lo em lugar nenhum, já é praticamente um best-seller; mais de dez está ótimo; menos disso é aceitável, desde que elas apareçam depois. É o nicho do nicho do nicho. Organicamente, alguém como eu passar de cem leituras num único texto em uma semana — como já aconteceu — e entrar no pódio do Paulo Miranda entre os batutas do Recanto equivale a eu me transformar numa espécie de Carlinhos Maia: só que paulistano, bem-vestido, culto, engraçado, bonito e educado. Pensando bem, foi uma péssima comparação.
De tudo, porém, o que mais me chama a atenção são as pessoas que ficam entre quinze e trinta minutos comigo — ou no meu site, que dá na mesma.

É uma eternidade para os padrões atuais. Mais do que se gasta em uma sequência inteira de Shorts e recortes do YouTube; às vezes, mais do que alguém aguenta permanecer num vídeo inteiro sem abrir outra aba, olhar o WhatsApp ou lembrar subitamente que precisa comprar detergente. Dependendo do episódio, já é quase uma série. E é certamente mais tempo do que muita gente dedica, de uma vez só, a um livro físico. O que, dependendo do livro, considero uma escolha no mínimo bastante sensata.
É curioso pensar nisso: alguém oferecer voluntariamente vinte ou trinta minutos da própria vida para ler este humilde escriba. Tempo é provavelmente a única coisa que o leitor efetivamente paga aqui, e justamente a única moeda que ninguém consegue recuperar depois.
Eu, particularmente, não dependo muito daqueles trinta minutos em que um texto recém-publicado permanece na página inicial do Recanto. Ali, um leitor novo só costuma clicar se o título lhe chamar bastante a atenção — e, mesmo assim, ele está lendo primeiro um texto, não necessariamente o autor. Isso quando chega até o fim depois de descobrir que o negócio é grande ou, pior, mal redigido.
Quem me lê com alguma frequência faz outra coisa. Escreve meu nome na busca, guarda a página nos favoritos, entra diretamente no meu site ou já sabe onde me encontrar. Não lê apenas um texto: lê o autor. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas. O texto pode interessar por acaso; o autor pressupõe uma relação. A pessoa volta porque quer descobrir o que aquele sujeito fará em seguida, mesmo quando não concorda com ele, mesmo quando acha que ele enlouqueceu ou talvez justamente por isso.

Porém, mesmo não dependendo da página inicial, ainda é frustrante ver um texto trabalhado, editado, pensado e ilustrado como os meus ser rapidamente soterrado por publicações que talvez coubessem melhor no Facebook. Mas democracia é isso: o espaço público não distribui atenção segundo o esforço intelectual investido.
Você pode ter um professor como Marco Antonio Villa concorrendo a deputado federal e não sendo eleito, enquanto figuras que eu, provocativamente, colocaria na categoria dos “fascistas mirins”, como Eduarda Campopiano e Lucas Pavanato, recebem votações gigantescas. Se juntarmos todos os livros que imagino que os dois tenham lido na vida — incluindo gibis, tirinhas de jornal e apostilas de cursinho em que foram reprovados —, ainda desconfio de que não chegam à metade dos livros que Villa escreveu.
É uma injustiça? Não. É democracia. Ninguém recebe voto porque leu mais livros, assim como ninguém recebe leitura no Recanto porque passou três dias trabalhando num ensaio. A urna não é banca de doutorado, e a página inicial não é Academia Brasileira de Letras. O público olha, escolhe, clica ou passa reto.
O problema é que compreender intelectualmente essa regra não faz com que ela se torne menos irritante quando somos nós os soterrados.
Boa parte do meu conteúdo — e acho que posso dizer, sem falsa humildade, que eu realmente sou um produtor de conteúdo — é composta de amenidades supérfluas, fotos, humor, memórias, pequenas observações do cotidiano. E acredito que isso contribua para que as pessoas sempre voltem. Afinal, como posso me identificar com alguém que não conheço? Ou mesmo odiá-lo adequadamente?
É muito mais difícil amar ou odiar quem permanece completamente desconhecido. Diante de quem não conhecemos, a tendência é uma espécie de neutralidade. Talvez exista aí algo daquela tragédia da vida comum que Tolstói enxergou tão bem em A Morte de Ivan Ilitch: uma existência perfeitamente adequada, socialmente correta, ordinária — e justamente por isso terrível. Para provocar afeto é preciso, antes de qualquer coisa, existir diante do outro como pessoa.
Por isso publico também minhas banalidades. O que comi, onde fui, o que assisti, uma fotografia, uma piada idiota, um treino, uma lembrança. Tudo aquilo que teoricamente não é “literatura” acaba construindo o sujeito que escreve a literatura. Talvez seja justamente por conhecerem essas partes inúteis que algumas pessoas se interessem pelas partes que considero importantes.
Entretanto, o que realmente me desmotiva é perceber que justamente os textos de que mais gosto — normalmente aqueles que mais trabalhosamente escrevi, editei, reli e pensei — às vezes não alcançam sequer dois dígitos de leitura, enquanto piadas e fotos passam por eles com tranquilidade.
Não acho isso necessariamente ruim. Gosto de oferecer risos e beleza. E, como publico fotografias praticamente todos os dias, imagino que quem continua voltando não esteja propriamente esperando que minha aparência sofra uma transformação extraordinária no intervalo de vinte e quatro horas. Se alguém me acha feio e ainda assim retorna diariamente para olhar minha cara, só posso agradecer por esse comprometimento quase masoquista.
Também atribuo parte dessas visualizações à minha aparência exótica, lânguida e geralmente bem-vestida. Se não sou classicamente belo, ao menos possuo uma aparência invulgar, palavra de que gosto justamente porque permite que a beleza permaneça uma questão aberta enquanto estabelece, com relativa segurança, que não pareço o caixa três do supermercado.
Mesmo assim, os textos de que mais gosto continuam sendo aqueles que eu próprio releio algum tempo depois e ainda consigo sentir alguma coisa. Os que me surpreendem porque uma frase continua viva, uma lembrança continua doendo, uma ideia ainda me parece bonita ou porque reconheço ali alguma coisa que, por sorte, consegui escrever exatamente como queria.
E talvez seja essa a contradição mais curiosa de publicar: aquilo que recebe mais atenção não é necessariamente aquilo que mais amamos, e aquilo que mais amamos não necessariamente receberá atenção alguma.
Por isso deixo aqui o link de um desses textos, para você que conseguiu chegar até este ponto fazer uma pequena reparação histórica em nome do bom gosto e, se tudo der certo, emocionar-se comigo.
https://daveledave.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=8736722
Se não gostar, pelo menos abra.
Já conta como leitura.