

Assistir a Ran numa tela grande e depois ter que voltar a assistir filmes numa televisão normal deve produzir a mesma sensação de quem mora alguns anos na Europa e, de repente, precisa voltar ao Brasil. Ainda que seja uma televisão de 70 polegadas exibindo Os Sete Samurais. Não é exatamente ruim, longe disso, mas você sabe que alguma coisa se perdeu na alfândega. Os filmes de Akira Kurosawa foram concebidos para serem projetados enormes, em película, diante de uma sala escura e de pessoas que, idealmente, permanecem em silêncio durante duas horas e meia. Assim como eu fui concebido para viver na Irlanda e não no Brasil, mas o destino às vezes faz essas concessões e nos obriga a aceitar condições técnicas inferiores.
Ran, como adaptação de teatro para cinema, para mim é 10/10. Como cinema em si, daria 8/10, e explico por quê. Kurosawa talvez tenha feito algumas das melhores transposições de Shakespeare para o cinema — não que eu tenha autoridade teatral para dizer isso, já que jamais assisti pessoalmente a uma montagem de Rei Lear; minha experiência com Shakespeare é essencialmente literária e cinematográfica, o que nunca impediu ninguém de emitir opinião na internet. Trono Manchado de Sangue é a sua versão de Macbeth; Ran, décadas depois, é sobretudo sua reinvenção de Rei Lear, transportando aquela Britânia lendária para o Japão feudal do século XVI. Se compararmos esse Lear com o que Jean-Luc Godard fez em 1987, a diferença às vezes parece a de uma Tekpix — a câmera mais vendida do Brasil que curiosamente ninguém jamais viu — para um iPhone de 38 mil reais, que igualmente espero nunca ver, porque provavelmente teria uma síncope de indignação. Eu me contento com um celularzinho de dez mil mesmo. Sou um homem simples.
Mas Kurosawa usa a câmera da maneira como eu justifico usar um celular caro: para fazer arte. E nisso ele dá aula de direção. São planos abertos enormes, exércitos reduzidos a manchas de cor dentro da paisagem, cavalos, bandeiras, fumaça, castelos, violência e movimento, mas quase sempre com uma câmera que observa de maneira estranhamente serena. A batalha não vira aquela salada contemporânea de câmera tremendo e 48 cortes por minuto para nos convencer de que alguma coisa está acontecendo. Kurosawa coloca centenas de pessoas diante da câmera, escolhe onde você deve olhar e espera. Há violência, mas existe composição; existe caos, mas o caos foi ensaiado.
Meu problema está justamente no outro lado dessa monumentalidade. A montagem e o ritmo funcionam perfeitamente dentro da proposta quase teatral do filme, marcada inclusive por elementos do teatro Nô, mas podem torná-lo lento e moroso para um espectador que entre sem saber muito bem no que está entrando. Antes de a tragédia revelar todos os dentes, Kurosawa passa bastante tempo deixando a gente olhar aqueles personagens, aquelas montanhas, aqueles céus e aquelas figuras imóveis dentro do quadro. Eu gostei, mas entendo perfeitamente alguém olhar para o relógio antes de compreender que aquilo não é um defeito acidental: faz parte da mise-en-scène. É um cinema que exige que o espectador desacelere até a velocidade do filme, em vez de o filme acelerar até a ansiedade do espectador.
As licenças de Kurosawa são maravilhosas. Em vez do rei da Britânia lendária de Shakespeare, temos o senhor feudal Hidetora Ichimonji; em vez das três filhas, Goneril, Regan e Cordélia, temos três filhos: Taro, Jiro e Saburo. Saburo ocupa claramente a posição de Cordélia: é justamente aquele que ama o pai o suficiente para contrariá-lo e, por isso, é expulso. Tango assume algo da função de Kent, o servo que permanece fiel mesmo depois de ser banido, e Kyoami é o bobo da corte, talvez uma das figuras mais humanas do filme, porque em meio àqueles nobres todos ocupados com honra, castelos, sucessão e assassinato, é o sujeito socialmente autorizado a ser idiota quem continua demonstrando amor.
E talvez seja uma das coisas mais bonitas tanto em Shakespeare quanto em Kurosawa: quando todo o edifício do poder desaba, os títulos começam a valer muito pouco. O homem que tinha exércitos, terras e castelos descobre que, quando já não possui nada para oferecer, quem ainda fica ao seu lado são justamente aqueles cuja fidelidade não dependia disso. No fundo, Hidetora tinha muita gente obedecendo a ele e pouquíssima gente amando-o. Só descobre a diferença quando já é tarde.
Mas uma das maiores genialidades de Kurosawa foi introduzir nessa adaptação uma criatura que não existe diretamente em Rei Lear: Lady Kaede. Se Lady Macbeth tivesse estudado administração, planejamento estratégico e vingança corporativa, talvez chegasse perto dela. Kaede era mulher de Taro; depois que ele é morto, ela seduz Jiro, irmão do marido, transforma-se em amante dele e passa a manipulá-lo, exigindo inclusive a morte da esposa legítima, Lady Sue. Só que seu plano não nasce simplesmente da ambição: ela quer destruir a casa Ichimonji porque Hidetora exterminou sua família e tomou suas terras. Portanto, ela é monstruosa, mas o monstro foi parcialmente fabricado pelo próprio homem que agora sofre suas consequências.
E aí está uma diferença fundamental entre Lear e Hidetora. Lear é orgulhoso, vaidoso, precipitado, quer ser amado sob encomenda e comete a estupidez monumental de dividir o reino segundo a quantidade de elogios que recebe das filhas. Mas Hidetora carrega sangue de verdade no passado. Ele construiu seu poder por meio da guerra, tomou terras, massacrou famílias e deixou vítimas pelo caminho. A família de Kaede foi uma delas. A de Lady Sue também. Hidetora destruiu o castelo da família dela e mandou cegar seu irmão, Tsurumaru, ainda menino.
E então acontece algo terrível e belíssimo: quando Hidetora já foi traído pelos próprios filhos, enlouqueceu, perdeu seu poder e vaga pelo mundo reduzido quase a um fantasma, acaba encontrando abrigo justamente na casa de Tsurumaru. O homem cego por ordem dele é agora uma das pessoas diante das quais aquele antigo senhor precisa se apresentar sem exército, sem castelo e sem autoridade. É como se Kurosawa tivesse pegado Gloucester, o personagem cegado em Rei Lear, desmontado sua função e devolvido a cegueira como uma dívida moral do protagonista. Hidetora não está apenas sendo vítima de filhos ingratos: está entrando, pouco a pouco, no inferno que ele mesmo construiu.
Por isso sua loucura também me parece mais terrível que a de Lear. Ele não enlouquece apenas porque perdeu o poder. Vai enlouquecendo conforme o passado começa a aparecer diante dele na forma de pessoas vivas. Cada ruína é quase uma testemunha. Cada vítima parece dizer: você se lembra?
E Kurosawa filma tudo isso como se Deus estivesse observando de muito longe. Talvez por isso os planos abertos funcionem tanto. Nós vemos gente morrendo aos montes, mas a montanha continua ali. O céu continua ali. O campo continua ali. Bandeiras vermelhas, amarelas e brancas atravessam a paisagem, centenas de homens se matam por alguns metros de terra, enquanto a natureza demonstra absoluta falta de interesse pelo resultado eleitoral daquela guerra. Até o título ajuda: Ran pode ser entendido como caos, desordem, tumulto. E o filme inteiro parece perguntar se esse caos nasceu naquele momento ou se sempre esteve dentro daquelas pessoas esperando apenas alguém dividir três castelos entre três filhos.
Agora meu próximo passo é assistir ao documentário A.K., de Chris Marker, realizado durante as filmagens de Ran. E isso talvez seja ainda mais interessante para quem gosta não apenas de filmes, mas do ato de fazê-los: acompanhar Kurosawa trabalhando, pensando a mise-en-scène, posicionando atores, lidando com composição, cenário e imagem, vendo como aquele caos perfeitamente organizado era construído antes de parecer inevitável na tela. Depois de assistir à obra pronta numa tela enorme, quero ver o artesão fazendo a obra.
Vou assistir pelo Belas Artes à La Carte, o streaming justamente do cinema em que vi Ran. É quase como sair de um encontro e, chegando em casa, procurar imediatamente documentários sobre a pessoa. Em outras circunstâncias isso poderia ser considerado obsessivo. Com Akira Kurosawa chama-se cinefilia.
Agora vocês que me leem têm lição de casa. Se não puderem assistir a Ran no cinema como eu — e faço questão de acrescentar esse “como eu” com a humildade característica dos grandes intelectuais —, procurem assistir de alguma maneira numa tela minimamente digna. Não no celular enquanto respondem WhatsApp, pelo amor de Deus. E, se nem isso for possível, pelo menos leiam Rei Lear. Depois assistam Ran. Depois, se quiserem completar o curso, assistam Trono Manchado de Sangue.
E então voltem aqui.
A chamada será feita. E será oral 😏