MAIS UM EXEMPLO DO COMPLEXO DE VIRA-LATA BRASILEIRO

Após a derrota de 1950 para o Uruguai — episódio que ficou conhecido como “Maracanazo” — Nelson Rodrigues cunhou a expressão “complexo de vira-lata” para se referir à nossa tendência de valorizar o que vem de fora, o estrangeiro, abanar o rabinho, como um cachorro caramelo tipicamente brasileiro, sem raça e sem pedigree.
Afinal, passamos de uma influência francófila para um viralatismo ainda maior da influência norte-americana — o que fica evidenciado no episódio que narrarei a seguir:
Meus leitores — e principalmente leitoras mais assíduas — vão se lembrar do meu texto sobre o jogo Undertale:
O ELEMENTO ESSENCIAL QUE SALVA ALMAS HUMANAS
https://daveledave.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=8489205
que retomei aqui:
JOGOS QUE VIRAM POESIA
https://daveledave.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=8582061
Aquele da determinação, projetado por Toby Fox, que escreveu toda a história, desenhou os personagens e compôs a música.
Pois bem: Toby se envolveu em polêmica com brasileiros e latinos devido à ausência de tradução ou localização do seu jogo para outros idiomas além do inglês e do japonês.
No universo do jogo, os personagens só falam esses dois idiomas — justamente os que o autor domina — e, por não falar outros, Toby não traduziu seu jogo. Oi, Toby…?
Quer dizer…
O que é o desafio de traduzir Finnegans Wake, Grande Sertão: Veredas, Ulysses, O Som e a Fúria ou Catatau diante do trabalho hercúleo de localizar para o português a magnum opus de Toby Fox, Undertale?
Com sua linguagem altamente rebuscada, baseada no inglês “shakespearizado” do Reddit.
Ele, que — como citei nos outros textos — copiou descaradamente outros jogos como Moon e EarthBound, que só pôde jogar graças à boa vontade de traduções não oficiais do japonês para o inglês, o que inclusive o motivou a aprender o idioma original.
Traduzir é acessibilidade. É ampliar o acesso à obra. É permitir que mais pessoas participem dela. E, muitas vezes, a tradução melhora um autor.
A versão em prosa de A Arte de Amar, na edição pocket de Ovídio, por exemplo, para mim é muito mais agradável de ler do que a versão em poema. Talvez a Divina Comédia também se beneficiasse de certas adaptações para ampliar seu entendimento.
Quando o professor Clóvis se propõe a ensinar, em seu podcast, obras como Ilíada, Odisseia e Teogonia, em formato acessível, ele está justamente fazendo isso: ampliando o alcance. Permitindo que pessoas que jamais teriam contato com essas obras passem a conhecê-las. E, quem sabe, depois leiam traduções — ou até o original.
Agora, o viralatismo é ler na internet brasileiros reclamando de brasileiros que reclamam da falta de tradução.
Dizendo que brasileiro é “reclamão mesmo”, que, em vez de aprender o idioma — como eles —, querem exigir tradução. Como se estivéssemos pedindo um favor a um gênio das artes para perdoar nosso país de terceiro mundo por não sabermos o que dizemos. Como se — parafraseando certas figuras públicas — tivéssemos QI mais baixo que macacos. E, por isso, precisássemos de auxílio, do governo e de tradução para jogar videogame e ler livros.
Dito isso: