O ELEMENTO ESSENCIAL QUE SALVA ALMAS HUMANAS
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
A humanidade nasceu contando histórias. Desde que aprendemos a falar, nos reunimos ao redor do fogo — provavelmente para assar um javali, mas eu prefiro imaginar marshmallows espetados em gravetos, mesmo que soe anacrônico — e, ali, criamos os primeiros mitos, risos, medos e sonhos.
Talvez tenha sido naquele ambiente que alguém, ao final de uma frase, soltou um “tchê” sem querer… e assim surgiu o sotaque gaúcho. Afinal, todo mundo sabe: quando eles amam, dizem “tchê amo” (TU-TUTIZ).
E esse impulso ancestral de narrar o mundo encontrou sua versão moderna em Walt Disney. Primeiro, pelas animações. Depois, pelos filmes. Por fim, pelos parques temáticos — autênticos templos de histórias para jovens e adultos, sonhadores de todas as idades.
Mas a tecnologia abriu outro caminho para a mesma vocação: os videogames. Alguns viram séries, como The Last of Us. Outros revelam criadores inteiros — artistas solitários com mundos inteiros dentro deles.
É o caso de Toby Fox, criador de Undertale. Um exército de um homem só: ele compôs a trilha, escreveu o roteiro, criou o design e moldou um universo encantador e excêntrico.
O mesmo vale para Stardew Valley, aquela “fazendinha” que acalmou meio planeta durante a pandemia.
Mas é Undertale que guarda o elemento que me interessa hoje: algo tão poderoso que atravessa jogos, histórias e vidas reais. Um elemento capaz de mover, restaurar, salvar.
Em Undertale, sempre que você salva seu progresso, surge uma frase assim:
“Saber que alguém te espera em casa te enche de DETERMINAÇÃO.”
“Saber que você escreve e alguém especial lê… te enche de DETERMINAÇÃO.”
“Saber que uma vida depende de você — que você vai ser pai ou mãe — te enche de DETERMINAÇÃO.”
Há algo profundamente verdadeiro nesse mecanismo.
A palavra “determinação” é, literalmente, a união de “deter” e “ação”: um motivo suficientemente forte para agir. Uma força que nasce no centro do peito, no lugar onde mora aquilo que realmente importa.
Quem trabalha, quem escreve, quem ama, quem cuida — não é apenas disciplinado. É movido. Impulsionado. Sustentado por uma razão maior, às vezes invisível, mas presente.
É isso que produz dopamina. É isso que dá sentido. É isso que salva.
Em Undertale, existe uma flor que diz que o mundo funciona assim: “mate ou morra”.
Mas o jogo inteiro prova o contrário.
Você pode vencer sem atacar ninguém. Pode chegar ao “final verdadeiro” sem eliminar um único oponente. Pode provar que, mesmo num mundo hostil, sempre há um caminho correto — mesmo que mais difícil, mais lento, mais vulnerável.
E isso é profundamente real.
Agir bem não impede que você sofra. Não impede que te ataquem. Não impede que a vida doa.
Mas ainda assim existe um dever silencioso: fazer o certo quando ninguém está vendo. Suportar. Escolher o bem. Caminhar de acordo com a própria consciência — não pelo resultado, mas pela intenção.
Não por acaso, Undertale foi inspirado em Earthbound, um jogo em que o mal definitivo só pode ser vencido por crianças — não pela força, mas pela inocência.
E o golpe final, o que derrota o impossível, não é uma espada, não é um ataque, não é uma técnica.
É um comando chamado “pray” — que significa “orar”.
É entrega. É confiança. É a vontade de oferecer ao alto aquilo que não podemos resolver sozinhos.
Porque às vezes é assim mesmo: fazemos o melhor possível, amamos o que amamos, sustentamos o que precisa ser sustentado… e depois deixamos que o destino faça o resto.
Essa força invisível, que sopra nas horas certas, que alinha caminhos, que coloca as pessoas no lugar exato da vida umas das outras — ela existe.
E quando toca alguém, ela desperta o que há de mais humano em nós:
A força silenciosa que salva almas humanas.