
O termo stalker surgiu com o filme de 79 de Tarkovski, mas, como concordaria o belo disco do Blur, Modern Life Is Rubbish, a vida moderna deturpa tudo: no original, stalker significa alguém que observa por carinho, alguém que guia, que conduz pessoas até a Zona — uma região proibida, misteriosa, onde os desejos mais profundos podem se realizar.
Este stalker observa, interpreta, conduz, mas não invade a intimidade de ninguém. Ele é mediador entre a realidade imediata e algo essencial, oculto. Na obra de Tarkovski, a Zona é metáfora do inconsciente, da fé, do desejo íntimo não verbalizado. O stalker é aquele que atravessa camadas simbólicas para tocar algo que os outros não conseguem alcançar.
Logo: stalking, no filme, é estudo da alma humana — não perseguição.
Mas hoje, nas redes sociais, stalker virou o perseguidor nocivo, o invejoso, aquele que influencia negativamente por desejar um objeto que não consegue ter, mas quer possuir — e sempre fisicamente, não espiritualmente. Se no filme de Andrei a busca é elevada, espiritual, ética, na vida atual virou o contrário — e ainda se tornou crime.
Lá, o stalker é quase sacerdotal: ele não viola, ele guia. Nas redes, tudo depende da intenção, mas geralmente é o oposto.
E existe um meio-termo retratado em Não Amarás, de Kieslowski — sobre o qual já escrevi, e quem quiser pode procurar minha resenha; ok, vou deixar o link abaixo, cof cof — onde o diretor polonês encena os Dez Mandamentos.
https://daveledave.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=8248536
No sexto, ele mostra Tomas, um jovem fascinado pela vizinha. Ele rouba um telescópio para observá-la, presencia sua vida promíscua, mas não perde a inocência pueril nem o amor por ela. Liga para sua casa apenas para ouvir sua respiração, sua voz, e entrega leite para estar perto. Mas também viola suas correspondências.
Quem quiser o desfecho, leia a resenha — por sinal, está muito boa, cof cof.
Eu acho que quando gostamos de alguém é natural querer saber dela. Mas também sei que o mistério gera fascínio. Gosto de saber as coisas naturalmente, aquilo que o destino me exibe de bom grado, não ficar vasculhando.
Se alguém diz que está interessado em mim mas não quer saber de mim — do que eu falo, como me visto, o que penso — então essa pessoa não gosta de mim. Se nos importamos, queremos saber. Procuramos saber.
Nesse sentido, acho que sou uma experiência: quanto mais se sabe de mim, melhor fico. Nós nos identificamos com pessoas, lugares, afetos.
Mas tudo isso é expressão do desejo — que, ao contrário do que dizia Freud, não nasce de uma falta. O desejo é produção, fábrica, criação de realidade. Quando sentimos desejo, não é porque falta algo: é porque a vida quer intensificar-se. Quer mais vida, mais potência, mais de si.
Por isso, quando nos identificamos com alguém numa história, não é só “isso se parece comigo”, mas “isso produz o que eu produzo”. É assim que me identifico com Scorsese, com De Niro, DiCaprio, Godard, Truffaut, Daniel Day-Lewis, e até com personagens da literatura como Hans Castorp, de Thomas Mann. Mann o descrevia como um sujeito banal — mas a história dele era especial. E histórias especiais não acontecem com qualquer um. E era por respeito à história, não ao personagem, que Mann a contava.
Eu também sou banal — mas minha história é especial. É por isso que quero contá-la para quem a torna especial. E faço isso sem esperar nada em troca, movido pelo princípio original do stalker de Tarkovski — pela virtude dadivosa de Nietzsche: dar sem esperar retorno, como a abelha que produz mel em excesso ou como o jarro que precisa transbordar e só pede mãos estendidas.
E o que é o amor diante dessa ternura desinteressada que sinto por ela?