
Eu não tenho história triste pra contar.
Infância difícil? Antes, o contrário.
Ela é fruto da minha salvação; a educação que tive é reflexo do meu comportamento até hoje.
Se você vir esse post em que mostro fotos antigas, nele quase se nota: a minha versão mirim é praticamente a mesma de agora.
DAS CRIANÇAS É O REINO DE DEUS (fotos minhas antigas) (ATUALIZADO)
Porém, a vida não é uma jornada constante num trilho sem percalços. Ela é tortuosa.
Ela é um jogo — de apostas, não de certezas.
Nela, disputam Eros e Tânatos, o instinto de vida e o de morte, pela primazia do corpo.
Como num jogo, sucumbir a Tânatos é como jogar sob o efeito negativo do status de
poisoned, berserk,
slowly.
Isso dificulta a jogada, mas não impede de continuar jogando, evoluindo, de chegar ao final e vencer.
Como na vida, estive à beira do fim — e tive que usar alguns continues pra seguir.
Mas hoje, meus status são os mais saudáveis possíveis.
Minha build e atributos estão bem distribuídos.
Cada vez que invisto em mim, em saúde e cultura, aumento meus continues.
Mesmo sabendo que o destino inexorável da vida é o fim do jogo — a morte — sigo.
Ela pode vir por acaso, por um inimigo invisível, por doenças ou catástrofes.
Mas tudo isso são apenas caracterizações humanas, não realidades em si.
São palavras. Retórica. Verborragia. Até pernosticismo.
Porque, se você procurar sentido na vida, verá que o sentido é que não há sentido algum.
A gente não descobre o sentido — a gente o inventa.
Quando você se depara com o fato de que a vida não tem sentido, está diante do que chamamos de absurdo.
A diferença é que há pessoas que se sentem mal com o absurdo e o nada, e há outras — como eu — que sentem nisso a liberdade.
Ora, se o mundo é uma tela em branco, então sou eu quem vai adicionar as coisas nela.
Pra quem cria, isso é perfeito.
Sou menos um escritor do que um escriba; menos um artista da palavra, mas mais um artista de si mesmo.
Mas pra quem não tem espírito, só resta o nada — e então procura resposta em mundos fora da realidade: o paraíso cristão, o paraíso socialista, os paraísos hedonistas.
Mas tudo isso é o nada. É repetição.
É o trabalho árduo e inútil de Sísifo — rolar uma pedra que sempre volta, sem nunca chegar a lugar algum.
Então, como diz Camus, é possível imaginar Sísifo feliz nessa condição?
Pra mim, não.
Porque as pessoas repetem comportamentos que, como o de Sísifo, não foram escolhidos por elas.
Já a felicidade, pra mim, é a repetição dos caminhos que eu mesmo escolhi.
A única redenção que me falta é o retorno da pessoa de antigamente que eu amava.
Essa pessoa que nem sei se ainda existe.
Pois, quando a avaliei, estava num estado fisiológico doente — e, por isso, a julguei mal.
Hoje, sadio, reconheço a falta de beleza.
E a beleza, o que é, segundo Stendhal?
Uma promessa de felicidade.
Eu caminho todos os dias para alcançar minha melhor versão.
Mas talvez você perceba que, nesse caminho, deixou alguém pra trás — rápido demais.
O estado fisiológico em que a julguei no passado pode ter sido erro, mas também frustração.
Aprendi com o cinema americano que as histórias — principalmente as de amor — precisam ter começo, meio e fim.
E todas as minhas relações foram assim.
Mas com ela, só houve começo e fim.
O meio, preenchi com a imaginação.
Quando digo, batendo no peito, que se eu tivesse a oportunidade de conviver com a Helena do meu bairro, com a princesa de Ubai — ou com ela — com certeza eu teria êxito.
Meu comportamento basal não muda: não sou diferente do que escrevo ou mostro.
Enquanto a paixão dura momentos, o amor é o que se aprende.
Relacionar-se é uma questão moral — uma simulação do comportamento de quem ama.
É isso que sustenta os relacionamentos.
O papel da sedução é jogar com a emoção da paixão.
Entender que a mulher terá questões morais aprendidas com o passado, com a ética.
Mas amar o marido ou o companheiro — ela não ama.
A sociedade e a convenção farão ela sentir culpa por trair, mesmo que deseje.
O papel do sedutor é vendar essa culpa.
Tirar a restrição.
Fazer o desejo triunfar — através da beleza de si, que é uma promessa de felicidade.
Viu? Promessa.
Não garantia.
Eu não estou dizendo o que é certo ou errado.
Apenas descrevo como o jogo da sedução é jogado.
Eu não crio as regras.
Só jogo.
Só participo.
Só falo como ele é.