
DILACERANTE. Esse é o melhor adjetivo que me vem à cabeça após assistir a O Aniversário.

Rossellini tinha a capacidade de contar histórias homéricas valendo-se de poucos recursos. E é essa mesma proeza que esse diretor polonês consegue ao contar uma história distópica, quase 1984 e Admirável Mundo Novo, com um orçamento de apenas 10 milhões de dólares. Para se ter uma ideia, Flávio Bolsonaro pediu ao seu irmão Vorcaro mais de 13 milhões de dólares.
A arte é o melhor mecanismo para desvendar a realidade, ao contrário do que dizia Platão. Aristófanes, por meio da comédia, já desmascarava as idiossincrasias de Sócrates. E é isso que acontece com esse filme, que, no início, me causou certo desconforto — não pela qualidade, mas pelo modo como foi filmado.
Eu estava numa onda — aliás, outro nome de filme que vai ao encontro deste — de assistir a mais filmes de arte, contemplativos. E esse me pareceu como se eu estivesse vendo um filme de Kieslowski, seu conterrâneo, após tomar Ritalina e na velocidade de 3x. Tive até dificuldade de acompanhar tudo o que acontece na tela.
Confesso que, se não fosse a indicação do André Barcinski, dificilmente eu teria chegado até o final. Mas valeu a pena, porque eu sairia perdendo.
Aniversário é um filme intimista e pessoal, de relações pessoais, mais propriamente. Ele se passa ao longo de dois aniversários de casamento de um casal entre 25 anos aos 30 anos de casados. Mas a realidade, nesse ínterim, muda drasticamente, o que revela como uma decisão errada nas urnas pode mudar nossa realidade.
O filme relata a história de uma escritora e professora universitária, liberal e intelectual, e de seu marido, chefe de cozinha, que celebram o aniversário de casamento. Na festa, surge a nova namorada de um dos filhos do casal. Começa a confusão.
A namorada do filho apresentou um trabalho na universidade, mas foi expulsa pela mãe dele por apresentar ideias autoritárias e antidemocráticas — exatamente aquelas que pregam a mudança. Ironicamente, a mesma palavra de ordem do bolsonarismo.
O grande mérito do diretor é narrar as consequências das ideias desse livro chamado A Mudança sem exatamente dizer quais elas são.
Daí o filme vira quase Parasita. O que resulta desse encontro é que ela arruma uma maneira de se infiltrar na família e trazer a desgraça, até que sua tese de TCC vira um livro que vai influenciar toda a sociedade norte-americana.
Mas não irei contar mais nada, para aguçar a curiosidade de leitores inteligentes e sagazes.