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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


UM RETRATO PERFEITO DO RESSENTIMENTO BOLSONARISTA

 


 

TIAGO

 

I — A INFÂNCIA E A EXPERIÊNCIA DA INJUSTIÇA

Tiago, 76 anos, me conta que sua vida familiar foi em Ribeirão Preto, em São Paulo, cidade onde nasceu. Seu pai natural abandonou a família — formada por ele, um irmão mais velho e a mãe. A mãe, uma mulher bonita, segundo ele, casou-se de novo com um grande empresário da região. Tiago tinha seis anos quando isso tudo aconteceu. A mãe teve dois filhos com o novo marido, e o grande problema de Tiago parece ter sido o fato de se ver preterido pelos irmãos do novo casamento.

 

Ele relata que sua infância e adolescência foram um grande esforço para merecer a atenção da mãe e do padrasto. Segundo ele, a mãe gostava mais do filho caçula do novo casamento, o qual também era o filho preferido do padrasto — pai biológico de Nuno, o caçula —, que costumava dizer, à mesa, que queria que Nuno guiasse os negócios da empresa.

 

O padrasto era dono de várias fazendas na região, onde se criavam cavalos de raça para venda.

 

Tiago conta que os cavalos eram, e ainda são, vendidos a peso de ouro. Também tinha diversas revendedoras de automóveis e tratores na região, e uma infinidade de bens imóveis em Ribeirão Preto e entorno.

 

Esse tipo de tratamento era percebido por Tiago como uma injustiça, já que, por mais que quisesse angariar o afeto especial do padrasto e da própria mãe, nunca conseguia competir com os irmãos mais novos. Ele culpa mais a mãe por isso, afinal, compreendia o fato de o padrasto gostar mais dos filhos naturais.

 

Essa experiência parece ter sido definidora da personalidade de Tiago.

 

Ele me conta que, enquanto os irmãos iam fazer — aos 16 ou 17 anos — cursos de um ano em Londres para aprender inglês, em uma escola cara e com mesada alta, ele permanecia na cidade natal, tendo uma vida comum e sem privilégios.

 

Disse também que nunca teve as chances que os meios-irmãos tiveram.

 

Era um sonho do padrasto que Nuno fosse político e empresário — segundo a opinião do padrasto, uma coisa ajudava a outra —, então Nuno era preparado com devoção.

 

Quando o menino completa 17 anos, é mandado para Nova York para estudar administração de empresas e economia na New York University.

 

Nessa ocasião, o padrasto de Tiago compra um pequeno apartamento para o filho caçula, bem pertinho da universidade — que fica no Village, no coração da cidade —, com uma linda vista de Nova York.

 

Ele cita o fato para mostrar o esmero e a afeição do pai pelos filhos naturais — em especial o caçula —, que tiveram tudo o que quiseram.

 

Tiago também culpa a revolta de se ver sempre sendo preterido pelo fato de ter sido um aluno medíocre na escola e na universidade.

 


 

 II — A TRAJETÓRIA PROFISSIONAL E O RESSENTIMENTO

Ao terminar a universidade particular de administração de empresas, ele almeja algum cargo de direção nas empresas do padrasto. Consegue, no entanto, apenas o cargo de gerente de uma revendedora de tratores. Tiago tinha 27 anos.

 

O filho mais velho do segundo casamento, Enzo, tinha apenas 21 anos e ainda cursava administração na FGV, em São Paulo, quando o pai o chamou para ajudá-lo nas empresas da família.

 

Mais um revés para Tiago.

 

Quando tinha 30 anos, um dos diretores denunciou um desfalque na empresa de tratores e apontou Tiago como o suposto autor da fraude.

 

Como esse diretor era também o melhor amigo do padrasto, ou seja, tinha sua total confiança, Tiago perdeu o cargo de direção e nunca mais recebeu outra chance. Em vez disso, trabalhou em cargos intermediários nas empresas do padrasto até sua aposentadoria.

 

Hoje, Tiago recebe cerca de cinco mil reais do INSS, e me diz que sua sorte foi seu irmão caçula ter deixado um apartamento do espólio do pai com ele, por decisão própria, já que ele não teria direito a nada quando o pai morreu:

 

“Ele me livrou do aperto que seria pagar aluguel com o que ganho hoje.”

 

Exceto o contato com o caçula Nuno, que o ajuda eventualmente a comprar remédios e pagar terapias, dado que Tiago foi diagnosticado com Parkinson em estágio inicial, ele não tem contato com mais ninguém da família, posto que, no episódio do desfalque, todos acreditaram no relato do diretor.

 

Tiago adiciona um comentário significativo sobre todo esse caso:

 

“Se eu tivesse feito o desfalque, teria sido uma reparação pela injustiça que sofri a vida toda.”

 

E acrescenta, com a ênfase de quem acredita no que diz:

 

“Mas não fui eu que fiz!”

 

Por alguma razão, não acreditei em Tiago nem na sua inocência.

 

Tiago é daquelas pessoas que culpam o mundo pelo próprio fracasso. Sua decadência não foi, de modo algum, pedagógica para ele.

 

O que comanda sua ética de mundo é: independentemente do teor daquilo que ele faça, tudo é bom e justo por ser reparação das injustiças que sofreu.

 


 

III — O BOLSONARISMO COMO CANAL DE EXPRESSÃO DO RESSENTIMENTO

Aos 70 anos, o ressentimento de Tiago parece ter encontrado um canal de expressão no fenômeno político Bolsonaro.

 

Quando respondia às minhas mensagens no WhatsApp para marcarmos as entrevistas, ele sempre me mandava um “joinha” feito pela figura do Bolsonaro com o polegar para cima e passando através de uma parede.

 

Tiago mora sozinho desde o divórcio com a mulher, cerca de onze anos antes. Quase todo seu tempo é despendido na internet, onde participa de vários grupos extremistas de direita.

 

O ódio pessoal a Lula é o traço mais evidente:

 

“Esse cara é um atraso para o país. Imagina no exterior, todas as coisas que esse analfabeto faz? É uma vergonha para o Brasil inteiro!”

 

Pergunto a ele o que tanto o desagrada em Lula.

 

Ele responde, de bate-pronto:

 

“Ele é ladrão, além de burro e analfabeto. Temos que tirá-lo de onde está — seja por bem, seja por mal.”

 

Em seguida, perguntei se ele havia se mobilizado para ir a Brasília no Oito de Janeiro, e o retorno foi:

 

“Convidado eu fui, mas eu tenho quase oitenta anos e decidi me preservar.”

 

Ele acreditou piamente na versão que diz que foram os militares — que covardemente arregaram na “hora H” — os responsáveis pela tentativa fracassada de golpe.

 

Tiago continua:

 

“Ainda bem que não fui. Convite tive muitos. Muita gente saiu de ônibus daqui com mantimentos para vários dias” — ou seja, tudo pago por gente ligada ao agronegócio da região.

 

E finaliza o raciocínio dizendo que prefere fazer a sua parte pela internet mesmo.

 


 

IV — PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E REDES SOCIAIS

Tiago passa a maior parte de seu tempo no computador, conversando e articulando nas suas redes de extrema direita.

 

Um dos pontos mais representativos da personalidade de Tiago é ele acreditar que pobres e pessoas sem escolaridade superior não devem ter o mesmo peso eleitoral de quem tem boa formação.

 

Ele me diz:

 

“O ideal é que o voto de quem tem estudos valha pelo menos três vezes mais do que o do pobre preguiçoso que não aproveita as chances e oportunidades.”

 

E não é apenas Lula o alvo do ódio. Tiago parece odiar qualquer pessoa das classes populares que tenha ascendido socialmente.

 

Ele tem um namoro virtual com uma mulher de 61 anos, moradora de Natal, no Rio Grande do Norte, a qual conheceu nas redes de extrema direita.

 

Os dois já se viram presencialmente duas vezes, mas o contato principal é pela internet.

 

Tiago me mostra as trocas de mensagens com a namorada, e observo que a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, é o ser mais odiado — depois de Lula, claro — pelos dois.

 

Eles trocam memes o dia inteiro tirando sarro da herança indígena da governadora, e a acusando constantemente de tráfico de drogas e corrupção.

 

Ele diz que a namorada tem mais de 30 mil seguidores no Instagram e outros tantos no Facebook, e milhares de contatos no Telegram.

 

Tiago se orgulha do sucesso da namorada e a incentiva a entrar na política.

 

Ela já tentou ser vereadora por Macaíba, uma pequena cidade perto de Natal, onde nasceu. Segundo Tiago, ela perdeu por muito pouco, mas nunca mais quis tentar um novo cargo eletivo.

 

Tiago me confessa que já teve ambições políticas quando mais jovem, mas que agora se acha velho para esse tipo de batalha:

 

“Eu faço meu trabalho de casa, mesmo. Quando tem um evento político da direita na região também procuro ir, se estiver bem de saúde.”

 

Pelo que pude observar vendo seu computador, o “trabalho” de Tiago é, exclusivamente, espalhar todo tipo de notícia falsa e dar credibilidade a elas.

 

Ele participa de, pelo menos, quinze grupos de bolsonaristas de todo o país.

 

Explica:

 

“O meu trabalho é de formiguinha, mas pouco a pouco vou conseguindo atingir mais pessoas.”

 

Muitos dos contatos de Tiago são policiais, bombeiros e caminhoneiros que ele conheceu em Ribeirão Preto e região.

 


 

V — RELAÇÕES FAMILIARES E A PERCEPÇÃO DA INJUSTIÇA

Com os problemas familiares que teve, Tiago me conta que não é bem-recebido pela família:

 

“Eles acreditaram piamente nas mentiras que inventaram contra mim.”

 

A única exceção é o caçula, que já foi deputado federal por São Paulo e que hoje comanda as empresas que restaram depois da má administração do dinheiro familiar pelo irmão mais velho do segundo casamento.

 

Tiago diz:

 

“Ele é o único que me ajuda quando preciso. Mas não fico enchendo o saco dele, não. Só peço quando preciso, mesmo. E sempre por problemas de saúde.”

 

A referência ao irmão mais velho do segundo casamento, que arruinou boa parte da fortuna do pai, é a prova, para Tiago, de que foi preterido injustamente.

 

Ou seja, ele acredita que as atitudes de Biba — apelido do irmão mais velho do segundo casamento, que se chama Enzo — demonstram que a perseguição familiar contra ele não tem fundamento.

 

O Biba deu “tombo” em todo mundo que podia. Vendeu boa parte do patrimônio imobiliário do pai dele e gastou o dinheiro em fazendas superluxuosas, poker, carros importados e até em um pequeno jatinho.

 

Fazia também festas de orgia na sua fazenda preferida, e mandava vir mulheres da capital no jatinho ou voos fretados. Além de muita, mas muita cocaína.

 

Eram festas que duravam dias, regadas a centenas de garrafas do champanhe Veuve Clicquot.

 

Depois de dizer isso, Tiago arremata:

 

“Imagine, o que eu fiz foi pinto pequeno perto desse estrago do meu meio-irmão. Mas o que foi que aconteceu com ele? Nada.”

 

Enzo arruinou 50% da fortuna do pai em poucos anos e, apesar de ser afastado de todas as empresas, recebe ainda uma mesada de trinta mil reais do caçula que assumiu todos os negócios restantes para si.

 

Tiago acrescenta:

 

“O cara roubou todo mundo e ainda ganhou um prêmio. Enquanto eu fiquei a ver navios.”

 

A história de vida de Tiago, ao que pude perceber depois de várias entrevistas com ele, liga-se ao bolsonarismo pelo seu ressentimento amargo.

 

Bolsonaro é visto por ele como uma figura de fora do sistema, que assume o comando pela sua sinceridade e coragem.

 


 

 VI — NORDESTE, PRECONCEITO E DISCURSO POLÍTICO

 

Tiago afirma:

 

“Ele teve a coragem de peitar todo mundo, coisa que eu não fiz — e olha onde estou agora. Só não foi eleito porque o Nordeste, a região mais atrasada do país, vota até em ladrão condenado desde que ele tenha distribuído umas migalhas por lá. Tomara que todos passem fome agora!

 

A culpa é deles em não reconhecerem tudo o que o Bolsonaro fez pela região. Que morram de fome!”

 

Para Tiago, os nordestinos são a praga do Brasil. E ele elenca razões empíricas que comprovariam sua tese:

 

“Quando foi que começou a ter assaltos na cidade de São Paulo? Quando vieram os nordestinos. O mesmo aconteceu no Rio. São preguiçosos e perigosos. Só querem levar vantagem.

 

É sempre a mesma turma que quer algo especial para si, uma lei especial para levar vantagem à custa dos outros, como os LGBT+, os quilombolas, os indígenas e até as mulheres.

 

Grande parte de minha admiração pelo Bolsonaro vem de ele não aceitar isso e de dizer na cara de qualquer um.”

 

Pergunto se ele tem orgulho de sua ascendência italiana.

 

Tiago responde:

 

“Óbvio. Foram os italianos que construíram São Paulo, hoje o estado mais rico do Brasil. Tudo com trabalho duro, sem apoio e ajuda, só pela vontade do trabalho, mesmo. Seria um sonho que o Brasil fosse todo como São Paulo. Você vê, em algum lugar do Brasil, coisa parecida com as estradas e as empresas que temos aqui?”

DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO)
Enviado por DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO) em 30/10/2026
Alterado em 30/10/2026
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