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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


CALVO JÁ FOI PADRÃO DE BELEZA

 


 

Estava assistindo àqueles programas do João Kléber, em que o sujeito revela à mulher, depois de anos morando juntos, um segredo que guardava a sete chaves, arranca a peruca e admite em rede nacional: era careca.

 

A mulher, indignada, olha para ele como se tivesse acabado de descobrir que o marido era um agente infiltrado da CIA e solta a sentença que arruinaria qualquer autoestima masculina:

 

“Você sabe que eu não gosto de homem careca!”

 

Ora, minha senhora, depois de anos dividindo a cama, a conta de luz e provavelmente o mesmo banheiro, a descoberta de que o sujeito não tem cabelo deveria ser a menor das suas preocupações. Mas não. A calvície, aparentemente, constitui uma espécie de crime contra a instituição matrimonial.

 

Fiquei pensando nisso enquanto assistia a Ran, do Kurosawa, e me deparei com uma constatação histórica que, para os meus propósitos estéticos, vale mais do que qualquer descoberta científica: ser calvo já foi padrão de beleza.

 

Sim, meus amigos. Enquanto hoje alguns sujeitos gastam uma fortuna tentando esconder a própria ausência de cabelo, os samurais raspavam a cabeça voluntariamente, faziam um pequeno coque e saíam por aí distribuindo golpes de espada como se fossem modelos da Vogue japonesa.

 

O que me leva a pensar que talvez o problema nunca tenha sido a calvície, mas a época em que nascemos.

 

Imaginem se eu tivesse vivido no Japão feudal. Em vez de ficar preocupado com a entrada cada vez mais generosa da minha testa, estaria perfeitamente integrado à aristocracia guerreira. Bastaria raspar o cabelo, prender o restante num coque e pronto: um homem de gosto refinado, respeitado pela sociedade e potencialmente perigoso para quem discordasse da minha opinião política.

 

Hoje, entretanto, se você perde cabelo, imediatamente aparece alguém recomendando minoxidil, finasterida, implante capilar ou algum tratamento milagroso que promete devolver à sua cabeça aquilo que a natureza, por razões que desconhecemos, decidiu retirar.

 

É curioso como a humanidade consegue transformar uma característica física em motivo de vergonha numa época e em símbolo de distinção noutra.

 

Em Ran, os samurais ostentam seus penteados com uma dignidade que faria muito homem contemporâneo reconsiderar a própria relação com o espelho. Não estão preocupados em parecer mais jovens, esconder a idade ou conquistar a aprovação de alguma mulher. Estão ocupados com guerras, intrigas familiares e disputas pelo poder. Afinal, quando se tem um castelo para conquistar, a última coisa que deveria preocupar um sujeito é a quantidade de cabelo que lhe resta.

 

E imaginem a situação daquela mulher do João Kléber no Japão feudal. O sujeito aparece com a cabeça raspada, um coque tradicional e uma espada na cintura. Ela, indignada, provavelmente diria:

 

“Você sabe que eu não gosto de homem careca!”

 

Ao que o samurai responderia:

 

“Minha senhora, respeite a tradição. Sou um guerreiro, não um patrocinador da indústria capilar.”

 

Talvez seja justamente isso que me fascine: a beleza não passa de uma convenção histórica que, dependendo da época, pode transformar aquilo que hoje chamamos de defeito em atributo de elegância.

 

E, convenhamos, se a calvície já foi padrão de beleza entre os samurais, não vejo motivo para que eu continue tratando minha testa como uma tragédia pessoal.

 

Afinal, posso não ter nascido no Japão feudal, mas tenho uma vantagem considerável sobre aqueles guerreiros: não preciso disputar um castelo para justificar minha aparência.

 

E, se algum sujeito quiser me chamar de calvo, que o faça com a devida reverência.

 

Já houve uma época em que isso era praticamente um título de nobreza.

DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO)
Enviado por DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO) em 24/10/2026
Alterado em 25/10/2026
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