
O racismo no Brasil tem outro nome, e ele atende pelo nome — aliás, pelo número — de 22.
Em seu livro Por que pobres votam na extrema-direita, o sociólogo Jesse Souza fala em três grandes dimensões do espírito: a inteligência, a capacidade estética e a moralidade.
Quem vota na extrema-direita padece, portanto, das três.
O sociólogo cita também a forma como o racismo científico, baseado na pele e na herança da escravidão, por meio do discurso de intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda, passou a ser um racismo cultural, sustentado pela tese do patrimonialismo. Como se confundir o público com o privado fosse uma deficiência e uma característica exclusiva do povo brasileiro, e como se aqueles que sucumbissem às teses populistas fossem moralmente inferiores.
Dessa forma, o negro e o pobre não seriam considerados inferiores biologicamente, mas por supostamente possuírem uma cultura inferior à do rico. Daí que toda cultura que se distancia do padrão moral e ético dos ricos — padrões ditados pelo consumo e pelo capital — passa a ser considerada uma cultura inferior.
E é isso que mais revolta nos eleitores da extrema-direita: se eles tivessem a coragem de admitir que votam na extrema-direita porque odeiam pobres, negros e trabalhadores, e que o Estado deve servir apenas a eles, sem oferecer nada aos mais necessitados, até daria para entender.
Mas a prova de que os eleitores da extrema-direita carecem de princípios morais é que muitos querem enriquecer à custa do sofrimento e da exploração do outro.
E ainda dão um verniz de legitimidade à exploração por meio do discurso moral: meritocracia, falta de esforço do pobre para trabalhar e estudar, como se ele tivesse uma cultura inferior à deles.
Desconsideram, assim, que os pobres precisam trabalhar para sobreviver, justamente em razão das políticas nefastas que diariamente atuam contra eles.