recanto das letras e os seus capitães do mato

Quando a maioria da população brasileira elege um candidato que defende interesses totalmente contrários aos seus, é porque a dominação de uma elite de rapina foi bem executada. Uma violência sem sangue é muito mais efetiva, e ela acontece por meio da manipulação das mentes, graças aos veículos de imprensa e de cultura, como as novelas, nas quais o padrão de vida dos ricos passa a ser valorizado, negando-se que quem produz a riqueza dos ricos é o pobre.
Isso acontece também por meio do discurso da meritocracia, desconsiderando-se que a própria meritocracia é atravessada pela herança. Não se herda apenas capital financeiro, mas também capital cultural e simbólico. Por meio do discurso contra toda política que defenda os interesses da maioria, os ricos, através da imprensa, chamam essas políticas de “populistas”. Defendem o Estado mínimo, mas querem que ele atue para diminuir seus impostos, conceder financiamentos e lhes dar a oportunidade de participar do lucro do Estado.
A elite do saque, em seu egoísmo, não deseja compartilhar a riqueza com quem mais precisa. Por isso, paga salários vergonhosos, otimiza seus lucros e maximiza a exploração do trabalhador. Daí sua ojeriza à escala 5 por 2 e sua defesa da escala 6 por 1, como se a escravidão não tivesse sido abolida. No Japão, conhecido por sua cultura de longas jornadas de trabalho, trabalha-se 40 horas por semana; no Brasil da escala 6 por 1, trabalhava-se 44.
Ora, o maior inimigo da elite é o povo numa sociedade democrática. Por isso, existe a intenção de eleger um candidato que seja contra o povo e, consequentemente, contra a democracia. O diabo é uma figura conhecida por seu egoísmo; tal ética de desvalorização e exploração, portanto, só pode ser considerada demoníaca.
Porém, nada demonstra maior eficácia do que ver o pobre proletário transformar-se em defensor mordaz do capitalismo e em capitão do mato. Aqui, no Recanto, os exemplos mais notórios são Argônio de Alexandria, atualmente Jacyens de Payens, o mutável Gambierro e o tal do Aloizio, que faz cosplay de Groucho Marx na foto de perfil. Não têm onde cair mortos, tanto financeiramente quanto, muito mais, intelectualmente, e, mesmo assim, aderem à tese de uma elite que não os considera parte de si.
Aqui me refiro a eles como plebe no sentido clássico, porque não dispõem dos meios de produção de capital. Em outras palavras, nunca tiveram funcionários, nunca foram PJs, nunca empreenderam.
O exemplo do mutável, porém, é cômico, porque ele quer reivindicar uma suposta intelectualidade, dizendo que a direita, sempre conhecida por sua falta de cultura, iria resgatá-la. Para isso, cita um autor que se debruçou sobre o sertão, como Guimarães Rosa, de Grande Sertão: Veredas, valendo-se de frases apócrifas disseminadas nas redes sociais. Esse é o tipo de cultura que cabe em seu repertório e que ele consome.
Parece cômico, mas é didático: mostra como o pobre de direita defende o patrão para se sentir pertencente, para se imaginar conhecedor de uma cultura que não possui. Daí também o ódio a alguém da mesma origem que a sua, como o atual presidente, que chegou aonde chegou.