O PROBLEMA NÃO É O CADÚNICO, É O PENSAMENTO ÚNICO

O Brasil é o único país das Américas que tem um presidente progressista. Todos os outros estão dominados pela ideologia de extrema-direita originária dos Estados Unidos. Não por acaso, vários governos das Américas, exceto o do Brasil, chegaram a níveis recordes de impopularidade, principalmente na América de Trump. Isso mostra que a mudança foi para pior e que, se a extrema-direita não ameaçar as próximas eleições em cada país, atacando as instituições, sairá do poder tão rápido quanto chegou, graças ao processo democrático de julgamento.
Mas, se a extrema-direita tem um discurso racista, contrário aos trabalhadores e à maioria da população, além de xenófobo, por que ainda assim foi eleita?
A resposta está até na estratégia de produção de consentimento criada nos Estados Unidos, por meio da qual, através da filantropia dos milionários, da compra de investimentos em universidades e do financiamento de professores das melhores faculdades americanas, eles mudaram a opinião pública, produzindo o consentimento de que uma minoria com muito dinheiro é positiva porque devolve parte dele por meio da filantropia, apesar de isso representar uma parcela ínfima de tudo o que ela nos tira.
Então, surgiu, depois do New Deal, a ideia de que os programas de bem-estar social destinados aos pobres eram culpados pela pobreza do país e pelo endividamento, e não o acúmulo de capital, a exploração do trabalhador e o impacto que a atividade capitalista tem sobre o meio ambiente.
Como se uma ajuda de subsistência, destinada apenas a impedir que um cidadão nativo morra de fome, fosse o problema social. Com isso, negam seus próprios argumentos: ora, se tudo está caro devido à inflação, como sobreviver com tão pouco? Quem quiser sobreviver terá que trabalhar. E aqueles que não quiserem trabalhar sobreviverão com tão pouco.
Agora, deliberar contra o que o cidadão faz ou deixar de fazer com seu dinheiro é privá-lo de liberdade, contrariando o principal preceito conservador e liberal.
Mas, para aceitar essa tese, não foi necessária violência. Bastou comprar veículos de imprensa e influenciar universidades para produzir o consentimento de que os interesses dos ricos são os certos e fazer com que os pobres compartilhassem dos mesmos ideais dos ricos.
É assim que os pobres se tornam de extrema-direita contra os próprios interesses, em benefício dos valores e interesses de seus patrões. Esse é o cerne do que um conservador e liberal como Nelson Rodrigues chamou de vira-latismo.
Quando a influência francófila e europeia do Brasil cedeu lugar à americana, passando a idolatrar fast-foods, parques temáticos e literatura e cinema baratos, foi também quando o nível cultural e social brasileiro, inclusive o da consciência política, começou a despencar.
O nível cultural mais elevado, nesse cenário, é ler uma revistinha do Batman.
Não é à toa que o que os americanos de fato produzem é desigualdade social, impacto sobre o meio ambiente, feiura, sedentarismo, epidemia de obesidade e o maior número de mortes e usuários de drogas. Ainda assim, hipocritamente, querem chamar o crime organizado de narcoterroristas, como faz Flávio Bolsonaro, que repete tudo o que Trump fala, igual a um papagaio de pirata.
Claro: ao classificar assim seus adversários, fica mais fácil exercer o imperialismo por meio de invasões. Mais fácil ainda se o presidente for um papagaio de pirata e já abrir a porta antes da invasão; e mais fácil ainda se ele próprio entregar o ouro ao bandido.