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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

TER FILHOS É EGOÍSMO PURO

 


 

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” — Brás Cubas.

 

“Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho.” — Ira!

 


 


 

Outra vítima fatal do senso comum, que ele costuma produzir diariamente, é a ideia de que quem não tem filhos depois de certa idade é uma pessoa irresponsável, principalmente se ainda mora com a família. Na verdade, é o contrário: ter filho morando com a família é uma que é irresponsabilidade, principalmente quando aqueles que têm filhos legam aos pais a miséria de criá-los.

 

E mesmo quem tem estabilidade e todas as condições de ter um filho — que, com certeza, é o compromisso mais caro que um ser humano terá na vida — o faz sem consultar a criança antes, para verificar se ela realmente quer nascer. O pai vai injetando o sêmen na mulher por meio da cópula, e duvido muito que, na hora, alguém grite, em vez de gemer: “Vai, meu amor, mete esse filho bem gostoso em mim”.

 

Ou seja, trata-se de algo decorrente de uma atividade sexual que é muito mais prazerosa no momento do que depois, mesmo quando supostamente planejada. E, quando é planejado, ter um filho também pode ser um ato de egoísmo, porque muitas vezes ele serve para quebrar a monotonia do casamento, dar sentido à relação, revigorá-la, fazer com que o casal tenha alguma coisa em comum quando a paixão — e, muitas vezes, o amor — acaba. Quando não há mais nada para conversar, o que resta de comum é ter um filho juntos. E, quando não é planejado, o objetivo do sexo é o prazer em si, a cópula, não a criança.

 


 

A RESPONSABILIDADE DE NÃO TER FILHOS

Muito mais responsável, ao contrário do que diz o senso comum, é não se endividar sem necessidade. Se moro com meus pais, numa casa grande, e dividimos as despesas, ou se eles ganham suficientemente bem para viver confortavelmente sem precisar de mim, meu salário pode ser só meu. Filho não é investimento. Imóvel, sim, é investimento, desde que isso não coloque uma corda no seu pescoço. 

 

Quem tem filho passa a viver para ele. A vida mais importante passa a ser a do ser que se colocou no mundo contra a vontade dele, mesmo que depois ele se acostume, como acontece com quase todos, exceto aqueles que sofrem de depressão ou acabam tirando a própria vida.

 

Um filho não lhe dá a possibilidade de ficar desempregado sem consequências; por isso, você aceita qualquer coisa. Pensar em demissão gera estresse. Ao contrário de alguém que pode contar com a ajuda dos pais nessa ocasião, quem tem filhos não pode se dar ao luxo de recusar qualquer trabalho ou condição.

 

Como diz a música do Ira!, “Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho”. Isso permite selecionar melhor, escolher com mais critério. A melhor escolha traz mais bem-estar, melhor convivência com a família, mais satisfação pessoal e mais liberdade. Tudo isso pode, de uma forma ou de outra, ser revertido em benefício da própria família que ajudou nos momentos de dificuldade.

 

E quem pensa que isso é se aproveitar dos pais talvez seja justamente quem teve filhos sem condições de sustentá-los e recebe uma mesada muito maior para ajudar na criação do rebento. Isso quando os pais não dão um imóvel, não contribuem com as parcelas ou pagam os estudos durante toda a vida. Tudo para gerar um indivíduo de repertório tão exíguo que seu projeto de vida não é criar nada além de si mesmo e de um filho, como manda o senso comum.

 


 

O PREÇO DE UM LEGADO

Quem tem filhos e não tem condições de pagar uma babá, ou precisa trabalhar apenas para sustentá-los, acaba vendo a própria aparência piorar. A atividade sexual em si diminui, porque a energia sexual é a mesma que compartilhamos com todas as outras atividades. O casal engorda, a mulher envelhece, e cuidar de si já não é mais uma prioridade.

 

E, quando os filhos crescem, talvez já não exista o mesmo amor entre o casal. Os filhos terão consumido o tempo de vida, a juventude e aquilo que poderia ter sido a melhor fase da existência. Tudo em troca do egoísmo de deixar um legado, como o de Brás Cubas.

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO) em 11/10/2026
Alterado em 11/10/2026
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