
O senso comum, como já disse, é o que mais faz vítimas fatais no mundo. Uma pandemia que assola mais vidas do que a peste bubônica, cuja história remonta a tempos imemoriais e que, de uma forma ou de outra, persiste até os dias atuais. Para cada vez que um burro pensa, um chinês morre.
E um dos seus dogmas mais proliferados é o de que quem se cuida, gosta de si mesmo e cultiva a própria aparência é vaidoso — e, portanto, egoísta. Ora, se uma pessoa fosse realmente egoísta, no sentido de manter o ego voltado exclusivamente para si, não se importaria tanto com a maneira como se veste, com o próprio cabelo, com o que agrada ou desagrada aos outros, muito menos com aquilo que pensarão a seu respeito. O sujeito verdadeiramente indiferente ao mundo não precisaria impressionar ninguém. Poderia sair de casa parecendo que perdeu uma discussão com o espelho.
Cuidar de si, portanto, pode ser um ato altamente altruísta. Quanto mais desinteressado de si mesmo eu sou quando me arrumo, mais altruísta me torno. Afinal, eu me arrumo para alguém que talvez encontre pelo caminho e cuja existência sequer conheço. Escolho uma roupa, cuido do cabelo, procuro emagrecer, ganhar músculos e melhorar minha aparência para um encontro que pode nunca acontecer. Há, nisso, uma espécie de generosidade antecipada: preparo-me para a presença do outro antes mesmo de saber se o outro estará presente.
Se o outro não existisse, para que emagrecer, desenvolver músculos, arrumar o cabelo ou vestir-se bem? Poderíamos argumentar que o fazemos para nos sentirmos bem conosco, mas até esse sentimento é atravessado por uma história de olhares, desejos, modelos de beleza e expectativas sociais. Aprendemos a nos enxergar, em alguma medida, pelos olhos alheios. Até o espelho, esse instrumento aparentemente tão íntimo, é um pequeno dispositivo de sociabilidade.
Ora, não existiria vaidade sem alguém a quem exibi-la. A vaidade não está propriamente em nós, mas na distância que nos separa dos outros e no desejo de atravessá-la. A vaidade são os outros.