
Dr. Jekyll and Mr. Hyde, apesar de ser um dos títulos mais interessantes da história da literatura, também é considerado um dos piores videogames já produzidos. Uma façanha considerável: conseguir transformar uma obra-prima literária numa experiência tão desagradável que o próprio monstro provavelmente se recusaria a jogá-la.
Quem popularizou essa desgraça eletrônica foi o Angry Video Game Nerd, personagem de James Rolfe, um dos pioneiros dos vídeos de humor sobre videogames na internet. Rolfe começou a produzir suas resenhas em 2004, quando o YouTube sequer existia, e hoje já é um senhor de meia-idade, com entradas no cabelo e uma carreira dedicada a xingar jogos antigos. O curioso é que muitos dos jogos considerados modernos quando ele começou já são retrô também. Se continuar por mais algumas décadas, talvez precise fazer uma resenha de si mesmo.
Uma de suas críticas mais célebres é justamente a de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, jogo de Nintendo baseado na obra de Robert Louis Stevenson, conhecida no Brasil como O Médico e o Monstro. O jogo possui uma ideia interessantíssima, muito superior à capacidade de seus desenvolvedores de transformá-la numa experiência agradável. Nele, o doutor Jekyll caminha pelas ruas enquanto sofre agressões, provocações e pequenos aborrecimentos cotidianos. Conforme sua irritação aumenta, uma espécie de medidor de raiva vai se enchendo até que ele finalmente se transforma em Mr. Hyde. É basicamente o que acontece com qualquer paulistano que precisa pegar a Linha Vermelha do metrô às seis da tarde, com a diferença de que, no jogo, a transformação aparece graficamente na tela.
No livro de Stevenson, publicado em 1886, o doutor desenvolve uma substância capaz de libertar uma outra manifestação de sua personalidade, dando origem a Edward Hyde. Uma espécie de lobisomem de casaca londrina, que não precisa esperar a lua cheia para revelar aquilo que existe de mais monstruoso no homem. Basta um experimento químico.
Ora, no século XXI, provavelmente encontraríamos nomes muito menos literários para essa substância: álcool, psicoestimulantes, anfetaminas, alucinógenos e outras drogas capazes de alterar a percepção, a disposição, os impulsos e, em determinadas circunstâncias, o comportamento humano. Evidentemente, nenhuma delas transforma literalmente alguém em outra pessoa, como acontece no romance, mas Stevenson parece ter antecipado uma questão que continua extraordinariamente atual: até que ponto somos aquilo que acreditamos ser, e até que ponto somos aquilo que as circunstâncias permitem que sejamos?
É aí que a história começa a ficar filosoficamente interessante e, numa interpretação bastante livre, quase deleuziana. O doutor Jekyll não precisa ser compreendido como uma essência imutável escondida dentro de um corpo, mas como um sujeito constantemente atravessado por forças, encontros, substâncias, desejos e acontecimentos. Conforme é afetado pelo mundo, modifica-se. O mundo o agride, sua raiva aumenta, ele se transforma. Uma substância invade seu organismo, altera sua relação com o próprio corpo, e surge outro estado daquele mesmo indivíduo.
Mas qual dos dois é o verdadeiro Jekyll?
Talvez nenhum. Talvez ambos.
A própria ideia de um “eu verdadeiro”, perfeitamente estável, seja uma das fábulas mais convenientes que inventamos para conseguir viver em sociedade. Afinal, precisamos acreditar que a pessoa que saiu de casa pela manhã é essencialmente a mesma que voltará à noite, embora, nesse intervalo, ela possa ter experimentado amor, ódio, inveja, desejo, medo, humilhação e uma vontade perfeitamente sincera de abandonar tudo e abrir uma pousada no interior da Irlanda.
Há também as diferentes personagens que representamos socialmente. Um homem pode se apresentar como defensor fervoroso da família tradicional, votar em Bolsonaro, condenar publicamente a chamada decadência dos costumes e, quando chega em casa, solicitar à esposa que utilize um cintaralho. À noite, talvez procure mulheres trans no Largo do Arouche, enquanto, durante o dia, critica Erika Hilton e curte publicações da deputada Ana Campagnolo.
Naturalmente, estou falando de um personagem hipotético, embora a humanidade produza exemplares suficientemente variados para dispensar qualquer esforço de imaginação.
Mas qual desses homens é o verdadeiro? O eleitor conservador? O marido? O sujeito que passeia pelo Arouche? O admirador da deputada? Aquele que condena publicamente os desejos que cultiva privadamente?
A resposta talvez seja a mais desagradável possível: todos eles.
Não porque sejam necessariamente coerentes entre si, mas porque a incoerência também faz parte da experiência humana. O sujeito pode possuir uma identidade reconhecida pelos colegas de trabalho, outra pela família, outra pela esposa, outra pelos amigos e uma quinta que só aparece quando está sozinho. Pode passar a vida inteira tentando convencer os outros de que é alguém e terminar sem conseguir convencer nem a si mesmo.
E talvez seja por isso que a literatura criou tantos monstros. Eles não são apenas seres horríveis que vivem fora de nós, mas representações exageradas daquilo que preferimos acreditar que não nos pertence.
Nesse sentido, há alguma coisa simultaneamente reconfortante e aterrorizante na ideia religiosa de que Deus conhece o coração dos homens. Não apenas aquilo que fazemos ou dizemos, mas também aquilo que desejamos, escondemos, pensamos e, às vezes, nem sequer conseguimos compreender em nós mesmos.
É uma espécie de psicanálise divina, com a vantagem de que Deus não cobra pela sessão e a desvantagem de que aparentemente não existe sigilo profissional.
Para além das aparências, dos papéis sociais e das infinitas personagens que representamos, haveria alguém capaz de conhecer aquilo que nem nós conseguimos conhecer por inteiro. Um observador absoluto, diante do qual não adiantaria fingir virtude, esconder desejo, inventar justificativas ou apresentar um currículo moral cuidadosamente elaborado para impressionar os demais.
O problema, evidentemente, é que ninguém jamais comprovou que o coração seja capaz de pensar. Biologicamente, ele continua sendo um músculo especializado em bombear sangue, o que torna bastante curiosa essa nossa insistência em atribuir-lhe as decisões mais importantes da existência humana.
Embora, considerando determinados resultados eleitorais, eu suspeite que o intestino também tenha alguma participação bastante significativa no processo cognitivo brasileiro.
Talvez o grande desafio de qualquer ser humano não seja descobrir definitivamente quem é, mas aprender a lidar com as diferentes possibilidades de si mesmo. Afinal, se somos constantemente afetados pelo mundo, por nossas experiências, pelos desejos, pelas substâncias, pelas pessoas e até pelo clima, a questão fundamental talvez seja como impedir que esses afetos determinem inteiramente aquilo que fazemos.
O doutor Jekyll acreditava que poderia separar suas tendências, preservar o homem respeitável e entregar ao monstro tudo aquilo que não desejava reconhecer como parte de si. Mas talvez tenha cometido justamente o erro de imaginar que seria possível deixar de ser responsável por uma parte da própria existência simplesmente dando-lhe outro nome.
Porque, no fim das contas, Mr. Hyde não era um estranho que havia invadido a vida do doutor. Era também uma possibilidade dele.
E isso me faz pensar no meu próprio caso. Não porque eu tenha desenvolvido alguma fórmula química revolucionária ou pretenda sair à noite aterrorizando Londres — até porque a passagem aérea está muito cara —, mas porque também reconheço em mim diferentes versões de uma mesma pessoa. Algumas mais generosas, outras mais egoístas; algumas disciplinadas, outras impulsivas; algumas suficientemente lúcidas para escrever sobre filosofia e outras que provavelmente não deveriam ter permissão para responder mensagens depois de determinada hora.
Acho que meu grande desafio, portanto, é conseguir ser Doctor Dave Le Dave com alguma consistência, independentemente dos afetos negativos que o mundo me imponha. Não significa negar a existência do monstro, muito menos imaginar que ele possa ser definitivamente exterminado, mas aprender a não entregar a ele o comando da própria vida.
Talvez a verdadeira vitória de Jekyll não fosse descobrir uma fórmula capaz de separar o bem do mal, mas compreender que ambos pertenciam ao mesmo homem e que cabia a ele decidir, tanto quanto lhe fosse possível, aquilo que faria com essa condição.
No meu caso, continuo tentando desenvolver essa fórmula.
Só espero não precisar testá-la num jogo de Nintendo.