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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


EU DEVO FAZER MUITO O “TIPO” DE “GAROTAS” QUE ESCREVEM NO RECANTO

 


 


 

O PROBLEMA COMEÇA COM A PALAVRA “TIPO”

Meu título é menos uma demonstração de soberba ou excesso de autoestima do que uma comprovação das limitações da linguagem.

 

Primeiro, porque utilizo “tipo”, uma palavra que serve para definir praticamente qualquer coisa. É um tipo de definição que define um tipo de coisa. Perdão. Há pessoas que conseguem falar mais “tipo” por frase do que um paulistano da Mooca fala “meu”, ou um atendente de telemarketing utiliza o gerúndio. É uma palavra tão útil que acaba não significando quase nada.

 

Mas existe também o tipo ideal de Max Weber, que é o mais adequado a este texto: uma categoria sociológica utilizada para classificação e compreensão dos fenômenos. O tipo ideal seria, por assim dizer, um modelo perfeito de determinada categoria, de modo que tudo aquilo que se afasta dele se distancia também da ideia central que pretendemos representar.

 

E aqui começa a ficar interessante, porque estou tentando descobrir se eu próprio correspondo a algum tipo ideal. Mais especificamente, ao tipo ideal de homem que agrada às garotas que escrevem no Recanto.

 


 

GAROTAS, MOÇAS, MULHERES OU JOVENS?

O segundo problema é o substantivo “garotas”. Ora, eu já tenho 35 anos e posso afirmar com absoluta segurança que não já não sou nenhum garoto. Dependendo de como estiver minha aparência no dia, das olheiras, de ter dormido bem ou mal, meu interlocutor poderá me chamar de “moço” ou “senhor”. Quando me chamam de senhor, ou finjo que não ouvi ou atribuo o tratamento a um excesso de educação. Porque dizer “não me chame de senhor, pode me chamar de você” é passar um recibo definitivo de que a pessoa realmente ficou velha.

 

Mas chamar de “garotas” as pessoas a quem me refiro também pode soar um tanto estranho. Por outro lado, minha aparência jovial faz com que utilizar “mulheres” me pareça um tanto solene, quase como se estivesse falando de pessoas pertencentes a uma geração diferente da minha. E o público-alvo deste texto são jovens, palavra igualmente inadequada, já que também compreende o sexo masculino e possui limites etários bastante elásticos. Basta observar os grupos de “jovens” das igrejas, que às vezes aceitam adultos quase chegando aos cinquenta anos, como meu irmão.

 

Então escolhi “garotas”, que me parece a palavra menos pior. Mas o que seriam jovens garotas? Que idade essa expressão compreende? Para mim, talvez compreenda simplesmente a idade das pessoas do sexo feminino que se interessam por mim. O problema é que essa definição, além de pouco científica, provavelmente não seria aceita pela Academia Brasileira de Letras. Não deveria existir uma palavra ideal para um jovem adulto como eu utilizar numa situação dessas?

 

Talvez “moça” fosse um bom substantivo. Mas até que idade alguém é uma moça? As mães, por exemplo, dizem às vezes que uma criança já é uma moça, ou que está parecendo uma mocinha. Eu, hein! Ao passo que “garota”, embora também possa designar uma menina, me parece pressupor uma idade um pouco mais avançada em certos contextos. E assim chegamos novamente à conclusão de que a linguagem é limitada: dispomos de milhares de palavras e, quando precisamos de uma que diga exatamente aquilo que pretendemos, descobrimos que nenhuma serve direito.

 


 

UM HAIKAI RESOLVERIA TUDO ISSO?

PROFERI Palavras e mais palavras sem sequer arranhar o tema principal, o que demonstra, mais uma vez, a limitação da linguagem. Talvez, se este texto fosse escrito em japonês, utilizando kanji, fosse muito mais curto. O haikai, por exemplo, é um gênero de uma beleza extraordinária justamente porque consegue condensar um mundo inteiro em três pequenos versos. Já eu preciso de vários parágrafos apenas para justificar por que estou chamando determinadas pessoas de garotas.

 

Mas, como não sou japonês nem poeta de haikais, prossigamos.

 


 

O TIPO IDEAL DE GAROTA QUE ESCREVE NO RECANTO

Acredito que faço o tipo de garotas que escrevem no Recanto porque esse perfil pressupõe uma espécie de tipo ideal weberiano: garotas que gostam de escrever, pensar, refletir, observar o mundo, atividades que normalmente exigem certa solidão, alguma disposição para a introspecção e uma relação mais íntima com as palavras. E essas garotas, por sua vez, também devem possuir um tipo ideal de parceiro. É justamente aí que meu título começa a fazer sentido.

 

Muitas vezes, é aquele tipo de garota que desenvolve um amor platônico pelo professor, apesar de ele ser mais velho, feio ou possuir uma aparência inteiramente incompatível com os padrões convencionais de beleza. O que a atrai não é necessariamente o rosto, mas alguma combinação de inteligência, postura, repertório, mistério e admiração intelectual. E convenhamos que, se existe um ambiente propício para esse tipo de fantasia, é um site literário em que as pessoas se conhecem primeiro pelas palavras e só depois, quando muito, pelo rosto.

 


 

ENTRE AKOGARE E ANITA MARIA, EXISTE DAVE LE DAVE

E, embora eu costume dizer que não sou propriamente bonito, mas possuo uma aparência invulgar, numa escala de beleza que vai de Akogare, zero, até Anita Maria, dez, estou certamente muito mais próximo de Anita.

 

Eu pareço um professor de Filosofia, mas um professor que escova os dentes, é elegante e perfumado. Um sujeito que poderia perfeitamente ser personal trainer, daqueles que treinam na academia do Shopping Iguatemi, na Faria Lima, mas que, ao mesmo tempo, poderia ser formado pela FFLCH da USP. Uma combinação de intelectual e esportista, com aparência um tanto andrógina e exótica. Um dândi da periferia.

 

Ora, convenhamos que essas características devem chamar alguma atenção, especialmente entre garotas jovens que escrevem, leem e possuem certa inclinação pela vida intelectual. Não é todo dia que se encontra um sujeito com aparência de professor de Filosofia, hábitos de frequentador da academia do Iguatemi e repertório de alguém que passou tempo demais entre livros, filmes e pensamentos que provavelmente não lhe renderão dinheiro algum.

 


 

ÉDIPO DIANTE DA ESFINGE DA MINHA BELEZA

Particularmente, percebo os olhares dos transeuntes, mas presto atenção só nos femininos evidentemente.

 

Pessoas de todas as idades me observam mais ou menos como Édipo observava a Esfinge, tentando decifrar o enigma da minha beleza, descobrir em que categoria estética me encaixar e, sobretudo, compreender como classificar aquilo que estão vendo.

 

Quanto mais as pessoas me veem, mais parecem formar alguma conclusão. Por isso percebo esse fenômeno especialmente na academia, onde os encontros são frequentes, embora também aconteça no cotidiano. Talvez a beleza invulgar tenha justamente essa característica: não se resolve imediatamente num primeiro olhar. Exige observação, reflexão, comparação, quase uma pesquisa de campo. Sou, portanto, uma espécie de objeto de estudo estético ambulante.

 

Com falsa humildade, considero que possuo uma aparência que me legitimaria a chegar em qualquer mulher do mundo. Não propriamente por uma beleza isolada, que pudesse ser medida numa escala convencional, mas pelo conjunto: aparência, postura, elegância, inteligência, humor, personalidade e tudo aquilo que, reunido, pode tornar uma pessoa interessante para além de seus atributos físicos.

 

Se não ganho o Oscar de melhor beleza, certamente ganho o Oscar honorário pelo conjunto da obra.

 

E que garota não gostaria de ganhar um Oscar?

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO) em 09/10/2026
Alterado em 09/10/2026
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