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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


A CABEÇA DE BOLSONARISTAS POBRES 

 



 

O DOLLY COMO INDICADOR ECONÔMICO

A prova de que a vida do brasileiro médio melhorou talvez seja o refrigerante Dolly, de que me lembrei ao ver essa placa de publicidade.

 

Faz anos que não tomo Dolly — talvez mais de vinte. Antes, era o refrigerante que eu mais consumia porque era barato e bom. Até as pizzarias, que antigamente davam Dolly de brinde, hoje dão Coca-Cola. Parece uma bobagem, mas o consumo cotidiano também conta a história econômica de um país.

 

Anos atrás, seria difícil imaginar aplicativos como iFood, Keeta ou 99 ocupando espaço tão grande na rotina das pessoas, sobretudo na periferia. Pedir comida em casa mais de uma vez por mês era um luxo muito menos disseminado. Hoje há gente que pede delivery mais vezes do que cozinha. Eu mesmo fui comer numa pizzaria pela primeira vez aos 13 anos e, antes disso, nem me recordo de já ter comido pizza. Quem acompanha minhas memórias aqui no Recanto hoje vê o quanto me tornei um entusiasta de pizzas e delivery.

 

Como dizer que a situação material não melhorou? Que nosso poder de consumo não se transformou? Evidentemente existe inflação, existem crises, existem períodos de perda de renda, mas também houve uma enorme ampliação do acesso a bens e serviços. O real chegou a circular próximo da paridade com o dólar; mas o salário mínimo, em 94, era R$ 70. Hoje, em 2026, é de R$ 1.621. O salário mínimo só chegou a R$ 151 em abril de 2000. Quando Lula assumiu a Presidência, em 2003, estava em R$ 200; ao fim de seus dois mandatos, em 2010, havia chegado a R$ 510. Dilma terminou seu governo, em 2016, com o mínimo em R$ 880.

 



WEBER, WHATSAPP E VÍDEOS DE DOIS MINUTOS

A diferença que vejo entre determinados eleitores de Bolsonaro e aqueles que ainda levam a democracia republicana a sério está também na maneira de buscar compreender o mundo. Em vez de formar opinião exclusivamente por vídeos de dois minutos cheios de cortes no TikTok, WhatsApp ou qualquer outra fábrica portátil de convicções instantâneas, tento seguir algo mais próximo do que a sociologia de Weber ensinava: compreender o objeto analisado, buscar o sentido da ação, tomar algum distanciamento e submeter a própria impressão à reflexão, à informação e ao estudo. E isso, gostemos ou não, exige leitura.

 

Certa direita reacionária sempre culpou o Nordeste e os pobres pela suposta burrice de votar no campo progressista. Mas eles estão longe de ser burros por definição. Muitas vezes são extremamente pragmáticos: perceberam que política é também um jogo de poder e perguntam uma coisa muito simples — o que sobra para mim? Então votam no candidato que, na percepção deles, lhes oferece alguma coisa concretamente, nem que seja um auxílio.

 


 

O REDNECK IMPORTADO

Agora, para mim, burro é o pobre que é tão pobre quanto eles e, ainda assim, vota conscientemente num projeto que tende a lhe retirar justamente aquilo de que depende.

 

Como o Brasil importa praticamente tudo, importamos também uma versão tropical do redneck americano: originalmente o branco pobre ou de classe trabalhadora do interior, sobretudo do Sul dos Estados Unidos, transformado pelo imaginário contemporâneo no sujeito armado, reacionário, hostil aos imigrantes e eleitor de Trump. Às vezes tudo ao mesmo tempo. A ironia é que os Estados Unidos construíram boa parte de sua riqueza com imigração. São Paulo também. E é curiosamente aqui que encontramos uma versão particularmente forte desse fenômeno: uma cidade feita de migrantes e imigrantes na qual descendentes de gente que chegou de fora podem acabar elegendo políticos que fazem do estrangeiro, do nordestino ou de qualquer outro grupo um problema.

 

Até nossos candidatos frequentemente são migrantes de outros estados. E mesmo assim conseguimos votar não apenas neles, mas também em projetos que defendem direitos e interesses contrários aos nossos próprios.

 


 

A CONSCIÊNCIA DE CLASSE DE QUEM TEM CLASSE

Marx estava errado — ou talvez tenha sido otimista demais. O proletário moderno não necessariamente possui consciência de classe e muitas vezes nem teve acesso suficiente à formação necessária para reconhecer a própria posição dentro da estrutura econômica. Quem demonstra uma consciência de classe bastante eficiente, curiosamente, são os ricos. Eles sabem muito bem quais políticas lhes favorecem, quais juros desejam, quais impostos não querem pagar, quais regulações os incomodam e qual candidato atende melhor aos seus interesses.

 

Nesse sentido, o pobre que recebe auxílio e vota na esquerda pode ter muito mais consciência de classe do que o sujeito de classe média baixa que depende do Estado para saúde, aposentadoria, educação, infraestrutura e segurança, mas escolhe justamente quem promete desmontar ou reduzir essas estruturas em nome de uma abstração econômica da qual ele próprio dificilmente será beneficiário.

 

É uma espécie de Robin Hood às avessas: tira de quem precisa para entregar a quem já possui. Se isso não é burrice política, confesso que começo a perder minha definição de burrice.

 


 

O CRISTÃO, O MILICIANO E O UBER

Há ainda contradições quase poéticas. Cristãos votam em candidatos cujas ações, na minha leitura, negam aquilo que eles próprios dizem professar: amar o próximo, exercer compaixão, combater o ódio. Quem fala obsessivamente em segurança pode terminar apoiando um projeto de segurança inspirado justamente na lógica miliciana e no fracasso institucional que o Rio de Janeiro conhece tão bem. Quem fala em emprego comemora a flexibilização até o momento em que descobre que o grande projeto profissional oferecido a ele é virar Uber.

 

É sempre curioso observar como a promessa de autonomia pode terminar numa jornada de doze horas trabalhando para um algoritmo estrangeiro e chamando isso de empreendedorismo porque agora o chefe não possui rosto.

 


 

QUEM LÊ, QUEM PENSA E QUEM VOTA

Boa parte das universidades, dos artistas, dos intelectuais e do público mais erudito brasileiro tende há bastante tempo a se aproximar mais do campo progressista. O mesmo acontece com muitos jornalistas, pesquisadores e profissionais cuja atividade cotidiana exige alguma convivência com cultura, ciência, história ou análise social.

 

Ou alguém aí já viu um cisne negro — ou um bolsonarista particularmente típico — citar espontaneamente um livro de literatura, discutir cultura, falar de arte, propor alguma ideia que represente avanço em vez de retrocesso, falar em amor em vez de ódio ou apresentar algum projeto de Brasil que vá além de dizer que eles são os culpados e nós somos os salvadores, sem explicar exatamente de quê eles são culpados nem como nós pretendemos salvar coisa alguma?

 


 

A MORAL DO PATRÃO NA CABEÇA DO EMPREGADO

Sabemos há muito tempo como o subordinado pode interiorizar a moral do patrão. O discurso da meritocracia é particularmente eficiente nisso: convence alguém que está muito mais perto de perder o emprego do que de comprar a empresa de que seus interesses são essencialmente os mesmos do proprietário.

 

Talvez seja justamente isso que eu esteja tentando entender com este livro: como alguém pode defender apaixonadamente uma ordem social na qual ocupa uma das posições mais frágeis. Não para descobrir por que o pobre pensa “errado”, como certa elite gosta de formular, mas para entender como uma pessoa pode aprender a desejar politicamente aquilo que, materialmente, talvez lhe seja prejudicial.

 

Porque, se existe uma coisa mais interessante do que saber em quem alguém vota, é descobrir por que alguém aprendeu a desejar aquilo em que vota.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (SIM ELE MESMO) em 09/10/2026
Alterado em 09/10/2026
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