
Ele não é meu. Pertence talvez a essa muletinha, ou a alguém que mora na rua, ou ele mesmo é que mora na rua, não sei… Ele costuma ficar em cima de um carro na minha garagem também. Eu olho para ele, ele retribui o olhar, mas nunca trocamos propriamente uma ideia além disso. Nossa relação é essencialmente contemplativa, embora eu desconfie que ele tenha uma opinião formada a meu respeito, provavelmente não muito favorável.
Se não fosse de ninguém, eu adoraria domesticá-lo, ensinar-lhe Shakespeare, Foucault e algumas noções elementares de filosofia, como distinguir um juízo sintético a priori de um juízo sintético a posteriori, além de outras matérias indispensáveis à formação intelectual de qualquer felino minimamente civilizado. Nada muito sofisticado. Não pretendo que ele escreva uma segunda Crítica da Razão Pura, embora considere perfeitamente razoável exigir que um gato compreenda a primeira antes de completar dois anos.
Também gostaria de apresentá-lo a Nietzsche, sobretudo para que compreendesse a diferença entre a moral dos senhores e a dos escravos, embora, observando a maneira como os gatos tratam os seres humanos, suspeite que eles já tenham resolvido essa questão há milhares de anos. Nós trabalhamos, compramos a comida, limpamos a sujeira e ainda agradecemos quando eles permitem que lhes façamos carinho. Se isso não é uma aristocracia perfeitamente estabelecida, não sei o que seria.
Por enquanto, entretanto, nossa relação permanece estritamente platônica, no sentido filosófico e também no afetivo. Ele continua em cima do carro, eu continuo olhando para ele e ambos seguimos sem saber exatamente o que o outro pensa.
Mas, pelo menos nas minhas ilustrações, ele já conquistou a imortalidade artística.