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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

SETEMBRO XANTE

 



 

Chuva

Setembro, que costumava ser um mês tão auspicioso, parece ter roubado os maus agouros de agosto. Reconhecidamente chove nessa época, mas este ano ele resolveu exagerar na vocação e estender sua carreira pluviométrica até outubro, atrapalhando inclusive minhas caminhadas matinais e noturnas. De manhã, como sabem, eu amanheço para acordar; à noite, caminho para poder dormir. Caminhar de manhã serve para dormir bem à noite, e caminhar à noite serve para acordar bem de manhã e caminhar novamente. É um sistema extremamente sofisticado de existência que depende basicamente de eu andar em círculos pela cidade, e a chuva conseguiu sabotá-lo inteiro.

 

Resultado: planos frustrados, tênis molhados e quatro quilos a mais. Agora peso 64. Se regredi carga na academia, certamente esses quatro quilos não vieram todos da musculação. Foram quatro quilos de frustração, água retida, comida consoladora e chuva. Talvez eu esteja vivendo uma forma muito específica de bulking climático.

 


 

Perséfone

Estou esperando o sol como Deméter esperava Perséfone voltar do Hades.

 

Aliás, talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo. Perséfone deve ter descido para o mundo dos mortos e, por algum erro administrativo do Olimpo, ninguém avisou que já passou da hora de devolvê-la. Deméter, inconformada com o sequestro da filha, deixou a terra estéril, as plantas pararam de florescer, o mundo esfriou e nasceu o inverno. Quando Perséfone finalmente retornava, a mãe recuperava a alegria e a terra florescia outra vez. Primavera, portanto, talvez seja simplesmente a felicidade de uma mãe que recuperou a filha.

 

É uma explicação muito mais bonita do que frente fria.

 


 

Hades

O problema é que, em São Paulo, aparentemente Hades conseguiu uma liminar.

 

Perséfone já deveria estar subindo, mas deve ter parado no trânsito da Marginal, perdido a conexão na Linha Amarela ou simplesmente decidido permanecer mais alguns dias no submundo porque soube que aqui em cima estava chovendo. Não posso culpá-la. Se eu morasse metade do ano com Hades e descobrisse que a primavera paulistana consiste em 16 graus, garoa e guarda-chuva virando do avesso, talvez também perguntasse se não dava para prorrogar o contrato.

 


 

Oráculo

Enquanto isso, Deméter sofre, as plantas não entendem nada e eu consulto a previsão do tempo como os gregos consultavam o oráculo de Delfos. Só que o oráculo pelo menos tinha a dignidade de falar em enigmas. O aplicativo diz “sol entre nuvens” e três horas depois começa um dilúvio. Pítia jamais teria coragem.

 


 

Primavera

Talvez por isso eu esteja esperando o primeiro dia verdadeiramente quente com uma ansiedade quase religiosa. Quero acordar cedo, abrir a janela e perceber que alguma coisa finalmente mudou no ar. Colocar o tênis, sair para caminhar sem calcular a probabilidade de voltar parecendo um sobrevivente do naufrágio da Arca de Noé e sentir aquele sol ainda fraco da manhã, que não esquenta o suficiente para incomodar, mas já avisa que o mundo não ficará cinza para sempre.

 

Talvez toda primavera tenha um pouco disso: alguém voltando do mundo dos mortos.

 

Perséfone para Deméter. O sol para a cidade. Minha disposição para mim mesmo.

 


 

Quilos

Quanto aos 64 quilos, esses podem ficar. Não tenho nada contra eles. Só gostaria que, da próxima vez que subissem na balança, viessem acompanhados de alguma comprovação muscular.

 

Não quero emagrecer. Só que os quilos parem de chegar nos lugares errados.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II OFICIAL
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II OFICIAL em 07/10/2026
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