
Olha que comentário que aquece o coração da Maria Luiza.

Consta na descrição dela que tem 19 anos, curiosamente a mesma idade que tinham Anita e Double N quando as conheci, de certa maneira, além de outras um pouco mais velhas, como Flora, de 21. Cada uma ótima à sua maneira e com uma voz própria, o que talvez seja a única coisa realmente importante quando se escreve. E se cito nomes é para homenagear tanto a eles quanto as letras. O talento não pode ficar oculto e deve ser nomeado.
Aliás, se uso o substantivo “escritor”, um tanto pesado e solene, é mais por simplificação. Escritor, a não ser que faça fortuna como Paulo Coelho ou se torne “Escritor” até no nome de candidato, como Augusto Cury, é quase sempre apenas alguém que escreve. O resto é departamento de marketing. Às vezes me pergunto, inclusive, se Augusto Cury já vendeu mais livros ou recebeu mais votos. O que parece seguro é que escrever livros continua sendo um empreendimento eleitoralmente mais eficiente do que disputar eleição — e, dependendo da família, talvez economicamente também.
Para quem apenas escreve, porém, a verdadeira remuneração continua sendo a leitura e, no auge da carreira, um comentário como esse que recebi de Maria Luiza. Não há cachê, participação nos lucros, plano odontológico ou previdência literária. Você publica um texto e, se tiver muita sorte, alguém aparece e diz: “Gostei”. É praticamente o Nobel do Recanto.
E, para que eu não seja acusado de parcialidade ou, pior, de alexguimismo, essa estranha doutrina segundo a qual um homem só lê, comenta e fala de mulheres, registro que também existem jovens escritores homens de talento por aqui. Tem o Gabriel Costa e Silva, por exemplo, com sobrenome de general golpista, o que poderia ser um mau prenúncio, mas juro que ele é gente boa. E sabe escrever, o que já o diferencia duas vezes de um general.
Também gosto de ler o Akogare, apesar de suas neurodivergências, de ser o “idiota” em inglês e não Dostoiévski. Às vezes o acompanho com a curiosidade clínica de quem deseja descobrir até onde a patologia vai chegar, mas, entre uma loucura e outra, ele solta alguma coisa sábia, bonita ou surpreendentemente lúcida. Como sabemos, isso acontece com todos nós: a diferença é que alguns conseguem publicar antes de recobrar a consciência.
Quando entrei no Recanto, eu já era uma criança velha, com uns 28 anos. Mas escrevo na internet de maneira profissionalmente não remunerada desde a tenra idade dos 14, o que significa que tenho uma carreira longa e uma renda perfeitamente coerente com ela: zero. São décadas de experiência acumulada sem qualquer risco de enriquecimento ilícito.
No mais, também gosto muito das velhas crianças do Recanto, septuagenárias e octogenárias, como D’Artagnan, Miguel e Paulo Miranda. Talvez porque, depois de certa idade, escrever volte a ter alguma coisa de infância: a pessoa já não precisa parecer tão séria, não precisa provar tanta coisa e pode simplesmente brincar com as palavras outra vez.
No fundo, talvez seja isso que mais gosto no Recanto: você encontra gente de 19, 28, 70 ou 80 anos fazendo essencialmente a mesma coisa — tentando colocar alguma coisa de si em palavras e torcendo para que alguém, em algum lugar, pare por dois minutos para ler.
E, se comentar, já é praticamente patrocínio.