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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

TENHO UM ENCONTRO MARCADO AMANHÃ NA PAULISTA, ÀS 15H50

 



 

Sim, tenho um encontro marcado para esta quarta-feira, às 15h50, na Paulista. Com Akira Kurosawa.

 

O único inconveniente é que ele morreu em 1998, mas isso não deve atrapalhar muito a conversa, porque nosso encontro será no Cine Belas Artes, que está exibindo Ran.
 

E, pelo menos lá, me sinto seguro porque não corro o menor risco de me deparar com algum eleitor do Bolsonaro.

 

Graças ao crítico cultural e cinéfilo André Barcinski, fui informado de que essa obra-prima de um dos maiores cineastas de todos os tempos voltou às telonas em relançamento e, para melhorar, será exibida justamente naquele místico cinema da Consolação, no começo da Paulista, um daqueles poucos lugares em São Paulo onde ainda parece perfeitamente normal entrar às quatro da tarde e sair três horas depois convencido de que acabou de viver alguma coisa importante.

 

Ran, aliás, já faz parte do meu acervo pessoal de filmes de arte, adquirido de forma absolutamente legal, porque o HD em que guardo todos eles eu paguei. Tenho inclusive a nota fiscal. Quanto ao conteúdo do HD, considero uma discussão muito mais complexa, envolvendo propriedade intelectual, metafísica e o direito universal do homem à cultura. De qualquer forma, jamais tinha visto esse épico de Kurosawa, inspirado em Rei Lear, de Shakespeare, numa tela de cinema, que é precisamente o lugar onde um filme dessa dimensão deve ser visto. Há filmes que podem ser assistidos no celular, outros na televisão e outros que, se você assistir no celular segurando-o na vertical, deveria aparecer imediatamente alguém da Cinemateca Brasileira na sua casa para recolher o aparelho. Ran, Ben-Hur e Lawrence da Arábia pertencem a essa última categoria. São filmes em que a tela grande não aumenta simplesmente a imagem: aumenta a própria ideia do filme.

 

E existe algo particularmente bonito em conseguir assistir em 2026, no cinema, a um filme de 1985 de um diretor que nasceu em 1910. É praticamente um encontro amoroso com a história do cinema. Kurosawa não vai poder comparecer pessoalmente, é verdade, mas deixou Tatsuya Nakadai, Shakespeare, exércitos, cavalos, castelos incendiados e 160 minutos de filme para representá-lo. Já tive encontros em que a outra pessoa ofereceu consideravelmente menos assunto.

 

Estou, inclusive, mais ansioso para esse encontro com Kurosawa do que estaria para sair com certas ingratas que sequer falam comigo. E talvez seja melhor assim. Kurosawa pelo menos já confirmou horário, lugar e duração do encontro; não vai visualizar minha mensagem e responder três dias depois; não vai dizer “vamos marcando”; e, salvo algum problema técnico na projeção, estará me esperando pontualmente às 15h50.

 

No amor, nunca sabemos se a pessoa vai aparecer.

 

No cinema, eu já comprei o ingresso.

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II OFICIAL
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II OFICIAL em 06/10/2026
Alterado em 06/10/2026
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