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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

A ÚNICA SAÍDA QUE VEJO PARA O BRASIL

 


 


 

Essa senhora, para quem não sabe, é minha mãe. Sim, ela não é nenhum gênio, mas também não é nenhuma Dilma e, muito menos, Bolsonaro. Portanto, diante das alternativas que o Brasil vem produzindo com uma criatividade que às vezes me parece excessiva, começo a considerar seriamente que a única saída seja lançar minha mãe à Presidência da República. Ela ainda não sabe disso, evidentemente, mas acho até melhor: muitos projetos políticos começam a dar errado justamente quando o candidato participa demais.

 

Estou pensando exclusivamente no bem do Brasil, claro, e não no futuro da minha família. Tanto que meu irmão já avisou que quer o Ministério do Esporte e eu, desprendido como sou, aceitaria apenas uma embaixada. Não a dos Estados Unidos, porque tenho garbo e elegância; talvez França ou Itália, de preferência Roma, onde acredito que meu perfil diplomático seria melhor aproveitado entre museus, cafés e pessoas bem vestidas. Estados Unidos eu só aceitaria se Obama voltasse. Caso contrário, seria um sacrifício pessoal grande demais, e patriotismo também tem limite.

 

E, já que estamos falando de projeto familiar, precisamos pensar no longo prazo. Meu sobrinho, filho do meu irmão, tem apenas cinco anos, mas isso não deve ser visto como impedimento: deve ser visto como preparação. Enquanto outras crianças aprendem a somar, ele já poderia começar a aprender articulação política, composição de base e como responder a uma pergunta sem necessariamente responder à pergunta. Assim, quando minha mãe terminar o mandato, meu irmão assume; depois venho eu; e, quando nós estivermos cansados de servir ao país, meu sobrinho já estará suficientemente adulto para dar continuidade ao projeto. À moda das grandes dinastias políticas, a democracia continua funcionando normalmente: o povo escolhe livremente qual membro da família prefere.

 

Aliás, acho até importante começarmos cedo, porque os Bolsonaro demonstraram como o sobrenome pode adquirir vida própria na política. No nosso caso, seria ainda mais organizado: nada de disputar espaço. Faríamos uma escala. Minha mãe na Presidência, meu irmão no Esporte, eu no corpo diplomático e meu sobrinho aguardando no banco de reservas. Se nascer mais alguém na família, providenciamos uma secretaria. Isso não é nepotismo; é planejamento sucessório. Empresas familiares fazem isso há séculos e ninguém reclama quando o filho do dono assume a fábrica de parafusos. Não entendo por que fazem tanto drama quando a fábrica é o Brasil.

 

Gosto muito do Obama. Como dizia Berlusconi, ex-primeiro-ministro italiano, ele era bonito e bronzeado. Quando Obama ganhou sua primeira eleição, lembro que eu ainda era jovem, mas já trabalhava — e estou observando daqui o seu riso irônico diante dessa declaração, viu? Eu trabalhava, sim. Ao contrário dos Bolsonaro, quando eu ainda era praticamente um rascunho já estava na iniciativa privada. Quando minha mãe assumir, portanto, ninguém poderá dizer que nossa família não conhece o mercado de trabalho. Conhecemos. Apenas pretendemos abandoná-lo gradualmente em favor do serviço público.

 

Naquele dia da vitória de Obama fui trabalhar muito feliz. Havia alguma coisa naquela eleição que, para mim, ultrapassava a política: eu olhava para aquele homem ocupando o cargo mais poderoso do mundo e sentia orgulho de ter a mesma cor que ele. Foi uma sensação muito diferente do clima de ansiedade, hostilidade e peso que senti pessoalmente durante os quatro anos do governo Bolsonaro e também da tristeza que senti ontem com essa derrota parcial. Política tem essa capacidade inconveniente de atravessar a televisão, entrar na nossa casa sem pedir licença e sentar no sofá como um parente que veio passar o fim de semana e, três meses depois, ainda está lá.

 

Talvez seja por isso que minha solução para o Brasil tenha acabado sendo minha mãe. Ela não apresentou plano econômico, não montou equipe ministerial, não possui marqueteiro e, até este momento, desconhece completamente a própria candidatura. Mesmo assim, já possui uma vantagem extraordinária: eu confio nela. Seu primeiro pronunciamento presidencial provavelmente seria alguma coisa como: “David, você não tem mais o que fazer?” Eu interpretaria isso como um chamado à responsabilidade nacional e imediatamente aceitaria a embaixada em Roma.

 

Meu irmão cuidaria dos esportes. Meu sobrinho começaria a ser preparado para 2046. Minha mãe governaria. Eu cuidaria das relações exteriores e, em algum momento, criaríamos até o Instituto Família Le Dave pela Democracia, naturalmente presidido por outro parente. Tudo perfeitamente republicano. A única diferença é que, em vez de uma família entrar na política, estaríamos tentando fazer o caminho inverso: transformar a política numa reunião de família.

 

No fundo, porém, estou fazendo o que sempre faço: usando humor para esconder meus anseios. Algumas pessoas fazem terapia, outras meditam, outras rezam. Eu transformo minha mãe em presidente da República, entrego um ministério ao meu irmão, preparo meu sobrinho de cinco anos para a sucessão presidencial e me nomeio embaixador em Roma.

 

Cada um enfrenta a realidade com os recursos institucionais que possui.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 05/10/2026
Alterado em 05/10/2026
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