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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


Como se formar em Medicina em apenas 2 anos

 


 


 

Qualquer faculdade — não só Medicina — daria para fazer em dois anos se os professores falassem um pouco mais rápido, parassem de fazer piadinhas no meio da aula e eliminassem aquela mania de perguntar: “Alguma dúvida até aqui?”. Dúvida você tira depois de formado.

 

As aulas de 50 minutos poderiam perfeitamente durar 17. Basta o professor falar em 2x, passar os slides em 3x e proibir o aluno de anotar. Afinal, o cérebro já vem com memória. Use-a.

 

Também eliminaríamos férias, feriados, semanas acadêmicas, trotes, congressos e qualquer evento que envolva alguém segurando um microfone por mais de oito minutos.

 

Anatomia, por exemplo: diminuímos muito o tempo gasto dissecando corpos porque usamos somente corpos de anões, graças a uma parceria com o Retiro dos Artistas, que possui um vasto acervo de artistas de baixa estatura que trabalharam em programas como Os Trapalhões, no Beto Carrero e em outras produções e que, infelizmente, caíram no ostracismo.

 

É uma questão puramente logística: corpo menor, dissecação mais rápida.

 

A cirurgia também poderia ser ensinada de maneira mais objetiva. No primeiro semestre, o aluno aprende onde cortar. No segundo, onde não cortar. No terceiro, costura. No quarto, pede desculpas à família. Pronto: formado.

 

Outra economia de tempo seria acabar com as especialidades excessivamente detalhadas. Cardiologia, neurologia, dermatologia, gastroenterologia… tudo isso poderia ser condensado numa única matéria chamada “Coisas que podem dar errado no corpo humano”.

 

Farmacologia seria ainda mais simples: “Isso aqui melhora. Isso aqui piora. Isso aqui melhora uma coisa e piora outras seis.” Prova na sexta.

 

Aliás, poderíamos substituir uma daquelas matérias consideradas “fundamentais” por Artes Cênicas Aplicadas à Medicina.

 

Não sei qual. Bioquímica, talvez. Alguma coisa precisa sair para o curso caber em dois anos.

 

Nessa disciplina, o futuro médico aprenderia técnicas realmente indispensáveis à profissão: como dar uma notícia ruim de maneira empática, como fazer uma pausa de três segundos antes de dizer “infelizmente”, como inclinar discretamente a cabeça para demonstrar solidariedade e, principalmente, como colocar a mão no ombro do familiar sem parecer que está procurando a carteira dele.

 

Também haveria aulas práticas de choro.

 

Não um choro exagerado, porque o médico precisa manter o profissionalismo. Apenas aquela leve marejada no olho esquerdo que diz: “Eu me importo”, mas também: “Tenho outros 14 pacientes esperando”.

 

O aluno aprenderia ainda diferentes interpretações para cada situação clínica.

 

Diagnóstico grave: olhar para baixo e respirar fundo antes de falar.

 

Exame normal: sorriso curto e reconfortante.

 

Paciente que pesquisou os sintomas no Google: silêncio prolongado, seguido de um olhar para o horizonte.

 

Paciente que pergunta “doutor, quanto tempo eu tenho?”: essa seria a prova final do semestre.

 

Os melhores alunos poderiam até escolher uma especialização em método Stanislavski para desenvolver memória afetiva. Antes de comunicar uma tragédia, o médico pensaria na morte do cachorro da infância e atingiria imediatamente o estado emocional adequado.

 

Isso, inclusive, resolveria outro problema da Medicina moderna: médicos tecnicamente excelentes, mas que não sabem demonstrar emoção.

 

O nosso talvez também não saiba.

 

Mas parecerá saber.

 

O internato, que hoje demora uma eternidade, poderia ser resolvido em um fim de semana intensivo. Sábado o aluno fica 24 horas no pronto-socorro. Domingo ele já terá envelhecido aproximadamente sete anos e adquirido a expressão facial necessária para exercer a profissão.

 

No final dos dois anos, entrega-se o diploma, um estetoscópio e uma mensagem bastante clara:

 

“Parabéns. Aqui, o único que tem que ser paciente é o paciente. Nós, não.”

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 02/10/2026
Alterado em 02/10/2026
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