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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


O Diabo Salva? Mulher “Satanista” sobrevive a duas injeções letais.

 




 

UM CRIME, UM PENTAGRAMA E UMA HISTÓRIA MACABRA

Christa Pike foi condenada por um crime brutal cometido em 1995, quando tinha 18 anos. Em um contexto envolvendo ciúmes, ela participou, ao lado do namorado e de outro jovem, do assassinato de uma colega, Colleen Slemmer, submetida a uma longa sequência de violência antes de morrer.

 

No corpo da vítima, foi entalhado um pentagrama. Pike também foi fotografada pela polícia usando um pingente com o mesmo símbolo.

 

E é justamente aí que começa a parte da história que ganhou contornos quase sobrenaturais — embora, como veremos, talvez seja muito mais humana do que demoníaca.

 


 

ANTES DE CONTINUAR: O MEU PROBLEMA COM O DIABO

Antes de dar mais detalhes, minha visão sobre satanismo é mais ou menos a de Zaratustra quando encontra o equilibrista moribundo, depois de sua queda.

 

O homem, assustado, diz:

 

“Que fazes aqui? Já há tempo que eu sabia que o Diabo me havia de derrubar. Agora arrasta-me para o inferno. Queres impedi-lo?”

 

E Zaratustra responde:

 

“Amigo, palavra de honra: tudo isso de que falas não existe. Não há Diabo nem inferno. A tua alma ainda há de morrer mais depressa do que o teu corpo; nada temas.”

 

Meu maior empecilho com o satanismo talvez seja mais estético — e, em alguns casos, moral — do que religioso.

 

Pra mim, o único diabo que satanistas realmente veem é quando se olham no espelho.

 

Não suporto seus rituais, sua simbologia, suas cores macabras e sem vida. Nem algumas de suas derivações estéticas. E há algo que sempre me incomoda nesses grupos que se apresentam como grandes individualistas e, ao mesmo tempo, parecem precisar de toda uma tribo, uma estética, uma liturgia e uma identidade coletiva para reafirmar essa individualidade.

 

Tenho, portanto, enorme antipatia por esse universo.

 

Só o fato de pesquisar este texto, pela crueldade de tudo, já me provoca mal-estar.

 

Vai ver o Diabo é justamente isso: aquilo que encontramos e que diminui nossa vitalidade, nossa energia e nossa alegria.

 

Dito isso, prossigamos com a notícia — e com a análise.

 


 

ERA SATANISMO OU UMA ADOLESCENTE BRINCANDO COM O SATANISMO?

Com o passar dos anos, a interpretação mais sensacionalista do caso também passou a ser questionada.

 

Há documentação de que Pike possuía algum interesse ou experimentação com satanismo e ocultismo. Ela usava um pentagrama, e a mesma figura apareceu entalhada no corpo da vítima.

 

Por outro lado, um dos especialistas ouvidos posteriormente no processo descreveu aquilo como algo mais próximo de uma adolescente “brincando” ou experimentando com satanismo do que de um assassinato propriamente organizado como sacrifício ritual.

 

E essa distinção é importante.

 

Uma interpretação razoável, para mim, é que aquela simbologia fazia parte do universo adolescente dela e acabou sendo incorporada à violência daquela noite. Isso não torna o crime menos brutal — apenas evita transformar automaticamente um assassinato cometido por seres humanos em uma história sobre forças sobrenaturais.

 


 

ENTÃO VIERAM AS DUAS DOSES

E chegamos à parte mais estranha.

 

Décadas depois do crime, Pike foi levada à câmara de execução no Tennessee.

 

O protocolo previa o uso de pentobarbital. 
 

Uma dose foi administrada.

 

Ela não morreu.

 

Então administraram uma segunda.

 

E ela continuou viva.

 

A execução acabou interrompida, e Pike foi levada para atendimento médico.

 

Portanto, tecnicamente, ela não “sobreviveu a duas execuções”. Sobreviveu a uma mesma tentativa de execução depois de receber duas doses da droga letal.

 

O que, convenhamos, já é suficientemente estranho sem precisar aumentar a história.

 

Sorte?

 

Erro médico?

 

Problema na administração da droga?

 

Uma particularidade fisiológica?

 

Coincidência?

 

Ou, para quem prefere esse tipo de explicação, intervenção de alguma entidade pouco recomendável?

 


 

QUANDO A CORDA ARREBENTA, DEUS ESTÁ DIZENDO ALGUMA COISA?

Existe uma velha anedota atribuída à Rússia czarista sobre um condenado cuja corda teria arrebentado durante o enforcamento.

 

Em épocas nas quais acontecimentos desse tipo podiam ser interpretados como sinais da Providência, sobreviver à própria execução facilmente adquiria um significado religioso.

 

Segundo uma das versões da história, porém, o condenado teria ironizado dizendo que naquele país nem uma corda sabiam fabricar direito.

 

O comentário teria chegado ao czar.

 

E o czar teria mandado repetir a execução para provar que ele estava errado.

 

Dessa vez, aparentemente, a engenharia nacional funcionou.

 


 

O DIABO SALVA?

Agora temos Christa Pike.

 

Uma mulher cuja história criminal ficou durante décadas associada a pentagramas, satanismo, ocultismo e um dos assassinatos mais perturbadores de seu tempo.

 

E que, quando finalmente foi colocada diante da própria execução, recebeu uma dose letal.

 

Depois outra.
 

E continuou respirando.

 

Eu, evidentemente, continuo ao lado de Zaratustra.

 

Não vejo nenhum Diabo salvando ninguém.

 

Mas talvez exista algo quase mitológico na maneira como nós, seres humanos, transformamos coincidências, falhas técnicas e acontecimentos improváveis em narrativas.

 

Um pentagrama se torna Satanás.

 

Uma corda rompida se torna Deus.

 

Uma execução fracassada se torna milagre.

 

E talvez o mais assustador de tudo seja justamente perceber que não precisamos de nenhuma criatura sobrenatural para produzir histórias verdadeiramente infernais.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 01/10/2026
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