
Sempre na vanguarda das letras, a novidade de hoje é que comprei Climax, de Gaspar Noé, filme que nunca vi porque não vejo filmes de terror.

Depois de uma minuciosa pesquisa, porém, informei-me de que o filme talvez não seja tão pesado assim — pelo menos não no mesmo sentido de Irreversível, que já vi com muito desconforto, ou Seul contre tous, do mesmo diretor.
O que farei antes de assistir é falar tudo o que sei — ou acho que sei — sobre esse filme.
Apesar de ser terror, Climax tem praticamente tudo de que gosto: dança, música eletrônica, linda fotografia e ambientação. Sempre gostei de videoclipes com dança coreografada. E Climax, em alguma medida, parece transformar isso em um filme inteiro.
Ele acompanha uma trupe de dançarinos durante uma festa. Em determinado momento, alguém coloca uma droga psicodélica na bebida, e então começa o terror alucinante, no qual delírio e realidade passam a se misturar, criando um ambiente simultaneamente onírico e infernal.
A própria fotografia vai ficando carregada de cores violentas, especialmente vermelhos, enquanto a câmera parece perder a estabilidade junto com os personagens.
Gaspar Noé talvez seja um dos diretores contemporâneos que mais me interessam tecnicamente.
Em Climax, ele próprio operou a câmera durante grande parte das filmagens, enquanto Benoît Debie ficou responsável sobretudo pela direção de fotografia e iluminação. Noé gosta justamente dessa proximidade física com os atores e dançarinos, podendo conduzi-los durante os próprios planos.
A linguagem dele é facilmente reconhecível: câmera na mão, movimentos alucinados, rotações, planos longos, luzes estroboscópicas, cores violentas e temas como drogas, sexo, vingança, morte e estados alterados de consciência.
É um cinema que frequentemente parece querer fazer o espectador sentir alguma coisa antes mesmo de permitir que ele pense sobre aquilo.
Também me identifico com o diretor em alguns aspectos. Por exemplo: ele já falou diversas vezes sobre a vontade de fazer um filme para crianças ou protagonizado por crianças.
Eu sempre achei que crianças e adolescentes, quando bem dirigidos, conseguem entregar atuações de uma naturalidade muito difícil de reproduzir depois. Talvez justamente porque ainda não adquiriram alguns dos vícios de interpretação da vida adulta.
Mas, tratando-se de Gaspar Noé, é possível imaginar que um filme com crianças não necessariamente seria um filme infantil no sentido mais convencional da palavra.
Numa conversa deliciosa com outro diretor igualmente peculiar, Harmony Korine, os dois pareciam uma versão de cowboy e do coxo de Midnight Cowboy, perdidos na noite, intelectual do cinema independente.
Noé pergunta a Korine se ele faria um filme para crianças.
Korine responde:
— Eu fiz um filme chamado Kids.
E Noé precisa esclarecer, rindo:
— Não. Para crianças.
Porque quem viu Kids sabe que ele talvez seja tão infantil quanto Christiane F.
O mais perto que Noé chegou dessa ideia, para mim, está justamente naquele que considero um de seus trabalhos mais polêmicos.
E vejam que estamos falando do diretor de Sodomites, curta de 1998 produzido no contexto de uma campanha francesa de prevenção ao HIV/AIDS e com conteúdo sexual explícito; do diretor que filmou em Irreversível uma longa sequência de estupro praticamente sem cortes e, depois, um homem tendo a cabeça destruída por um extintor; do diretor que imaginou um pai perfurando o pescoço da filha — felizmente apenas uma fantasia dentro do filme — e que, em Enter the Void, fez a câmera atravessar quartos de um motel observando a intimidade de diferentes personagens.
Mesmo assim, talvez o trabalho dele que mais me provoque estranhamento seja o videoclipe de Love in Motion, de SebastiAn.
Visualmente, o clipe antecipa algumas coisas que me atraem em Climax: Noé operando a câmera, uma coreografia extremamente marcada — de Celia Rowlson-Hall —, música eletrônica, câmera inquieta e um quarto transformado quase inteiro em espaço coreográfico.
Lente Tresor dança enquanto a câmera circula pelo ambiente e assume uma posição extremamente próxima da personagem. Há cama desarrumada, objetos espalhados e uma encenação que produz uma sensação deliberada de intimidade.
A música, a fotografia e o movimento são lindos.
E justamente aí começa meu desconforto.
Porque Lente Tresor era uma atriz que ganhou holofote na mídia em 2012 quando ela tinha entre 5 a 6 anos de idade. Bom, o problema é justamente que o videoclipe é de 2012…
(Link do clip: https://youtu.be/spzGGnS0zt0?is=hBmgzapVOZ1F9Xzj )
Independentemente da intenção artística, acho que toda intenção artística deve encontrar algum limite. E o fato de uma obra poder ser formalmente belíssima não elimina automaticamente as questões éticas produzidas pela maneira como uma criança é colocada diante da câmera.
Talvez seja justamente essa contradição que torne o clipe tão difícil de esquecer.
Quando penso num filme com crianças, imagino algo mais próximo de Moonrise Kingdom, de Wes Anderson — embora, pensando melhor, talvez esse também não seja o exemplo mais inocente possível.
Penso em Os Batutinhas; penso nas crianças do começo de Era uma Vez na América; nas atuações infantis de Cidade de Deus; em Jean-Pierre Léaud como Antoine Doinel em Os Incompreendidos.
É esse, para mim, o grande privilégio de trabalhar com atores infantis: encontrar intérpretes que ainda não carregam completamente os vícios da maioridade e que conseguem produzir uma ingenuidade — não necessariamente temática, mas gestual — muito difícil de fabricar.
Climax tem uma relação evidente com Suspiria, de Dario Argento, mestre italiano do terror. O próprio Noé já citou o filme original entre suas referências: a escola de dança, as cores violentas, o horror e aquela atmosfera deliberadamente artificial aparecem como parentes próximos do universo de Climax.
Eu já escrevi aqui no Recanto sobre como consegui assistir a pouco menos de vinte minutos de Suspiria.
E olha que o filme tem coisas incríveis: ambientação, suspense, direção de arte e uma fotografia tão carregada de cor que às vezes parece que alguém derramou tinta diretamente sobre a película.
Desisti depois de um assassinato brutal, meio trash, é verdade, em que o coração da vítima é atravessado enquanto ainda bate.
É tudo muito cinematográfico, quase burlesco, mas continua sendo uma cena forte e impactante.
Pensei:
— Se começou assim, imagina como termina.
Mesmo assim, aquilo não se compara ao realismo gráfico da violência de Irreversível, filme sobre o qual também escrevi aqui e que se tornou uma das resenhas mais lidas do meu site.
Porém, o que realmente me fez abandonar o filme italiano de horror nem foi a violência.
Foi descobrir que aquela versão estava... DUBLADA EM INGLÊS.
Se eu já não assisto a filme dublado em português, imagina assistir a um filme italiano dublado em inglês.
Aí também existem limites para a experiência artística.
Climax, por sua vez, parece herdar de Suspiria principalmente a violência cromática: vermelhos, ambientes saturados e aquela atmosfera hipnótica em que o espaço deixa de parecer apenas um lugar e começa a funcionar como um estado mental.
É uma estética que Noé também levou para trabalhos publicitários, inclusive filmes que dirigiu para a Saint Laurent, que você pode ver aqui: https://youtu.be/Dd5vHr-RJPg?is=4ITJ4HLtvqmkhlgK
Então este é o relato de antes.
Eu ainda não vi Climax.
Tenho minhas expectativas, meus preconceitos, minhas referências, meus medos e provavelmente algumas ideias completamente erradas sobre o filme.
Agora falta descobrir quais delas sobreviverão.
Aguardem a resenha DEPOIS DE CLIMAX, quando eu finalmente assistir.