
Eu vi um dos últimos espécimes de gordo, o Rolandinho, que agora é magro, do Pipocando, falando sobre como as séries mudaram.
Antigamente, numa época ingênua, na qual ainda existiam gordos, séries como Lost e 24 Horas— talvez duas das últimas que eu realmente tenha acompanhado — tinham temporadas novas praticamente todos os anos.
Agora, não é estranho uma série demorar três ou quatro anos para voltar.
As séries e seus prazos aumentaram ou foi a burrice do público que aumentou, ao mesmo tempo que a inteligência geral diminuiu?
Uma evidência interessante é que parece existir quase uma norma para escrever para a Netflix: os roteiristas precisam constantemente explicar o que está acontecendo na trama, o que os personagens estão fazendo, o que pretendem fazer e, às vezes, praticamente por que estão fazendo.
Talvez porque o público possa estar fazendo alguma outra coisa enquanto assiste.
Desconfio que, muito possivelmente, só não seja sexo.
É uma escrita que parece confiar cada vez menos na atenção — e, consequentemente, na inteligência — do espectador.
Aliás, no primeiro parágrafo eu fiz uma comparação entre o Rolandinho, ex-gordo, e as séries de antigamente em relação às atuais.
Agora vou dizer que menti.
Quer ver?
Minto: a última série que vi, na verdade, foi Round 6.
Cheguei até o primeiro episódio da última temporada, quando tive a humildade de admitir que o nível de burrice que a trama exigia de mim estava acima das minhas capacidades.
Também assisti a um episódio de Black Mirror durante um curso da prefeitura — dublado, ainda por cima.
E gostei.
Fui, então, tentar assistir ao primeiro episódio da série e percebi que aquilo provavelmente havia sido apenas sorte do acaso.
Também assisti ao primeiro episódio de Breaking Bad, experiência que foi suficiente para colocá-la no topo deste texto.
As outras duas, Wandinha e Stranger Things, devo admitir, estão aqui por puro preconceito meu.
Nem assisti.
Talvez sejam excelentes.
Talvez um dia eu adquira a burrice necessária para descobrir.
Eu acho, inclusive, que, se tivesse uma burrice compatível com a apreciação dessas “obras”, seria mais feliz.
Mas aí eu só consigo obter satisfação lendo coisas como Os Irmãos Karamázov e A Montanha Mágica, ou vendo filmes de Tarkóvski.
O que talvez contrarie justamente certa ideia epicurista de prazer: a de que a felicidade não deveria depender de prazeres difíceis, raros ou excessivamente sofisticados, mas da capacidade de encontrar satisfação em coisas simples e acessíveis.
Talvez, portanto, a verdadeira burrice seja a minha: ter tornado tão difícil obter satisfação hedônica justamente numa época em que nunca foi tão fácil obtê-la.
Todo mundo abre a Netflix e se diverte.
Eu preciso de Dostoiévski.