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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


A VANTAGEM DE SER BURRO

 


 



Gostaria de ser burro para gostar de Breaking Bad, Wandinha ou Stranger Things também 😞

Eu vi um dos últimos espécimes de gordo, o Rolandinho, que agora é magro, do Pipocando, falando sobre como as séries mudaram.

 

Antigamente, numa época ingênua, na qual ainda existiam gordos, séries como Lost e 24 Horas— talvez duas das últimas que eu realmente tenha acompanhado — tinham temporadas novas praticamente todos os anos.

 

Agora, não é estranho uma série demorar três ou quatro anos para voltar.

 

As séries e seus prazos aumentaram ou foi a burrice do público que aumentou, ao mesmo tempo que a inteligência geral diminuiu?

 


 

ATENÇÃO: O PERSONAGEM EXPLICARÁ O QUE VOCÊ ACABOU DE VER

Uma evidência interessante é que parece existir quase uma norma para escrever para a Netflix: os roteiristas precisam constantemente explicar o que está acontecendo na trama, o que os personagens estão fazendo, o que pretendem fazer e, às vezes, praticamente por que estão fazendo.

 

Talvez porque o público possa estar fazendo alguma outra coisa enquanto assiste.

 

Desconfio que, muito possivelmente, só não seja sexo.

 

É uma escrita que parece confiar cada vez menos na atenção — e, consequentemente, na inteligência — do espectador.

 

Aliás, no primeiro parágrafo eu fiz uma comparação entre o Rolandinho, ex-gordo, e as séries de antigamente em relação às atuais.

 

Agora vou dizer que menti.

 

Quer ver?

 


 

EU TAMBÉM ASSISTI A SÉRIES NOVAS. INFELIZMENTE.

Minto: a última série que vi, na verdade, foi Round 6.

 

Cheguei até o primeiro episódio da última temporada, quando tive a humildade de admitir que o nível de burrice que a trama exigia de mim estava acima das minhas capacidades.

 

Também assisti a um episódio de Black Mirror durante um curso da prefeitura — dublado, ainda por cima.

 

E gostei.

 

Fui, então, tentar assistir ao primeiro episódio da série e percebi que aquilo provavelmente havia sido apenas sorte do acaso.

 


 

BREAKING BAD TEVE UMA CHANCE

Também assisti ao primeiro episódio de Breaking Bad, experiência que foi suficiente para colocá-la no topo deste texto.

 

As outras duas, Wandinha e Stranger Things, devo admitir, estão aqui por puro preconceito meu.

 

Nem assisti.

 

Talvez sejam excelentes.

 

Talvez um dia eu adquira a burrice necessária para descobrir.

 


 

TALVEZ A BURRICE FOSSE MAIS DIVERTIDA

Eu acho, inclusive, que, se tivesse uma burrice compatível com a apreciação dessas “obras”, seria mais feliz.

 

Mas aí eu só consigo obter satisfação lendo coisas como Os Irmãos Karamázov e A Montanha Mágica, ou vendo filmes de Tarkóvski.

 

O que talvez contrarie justamente certa ideia epicurista de prazer: a de que a felicidade não deveria depender de prazeres difíceis, raros ou excessivamente sofisticados, mas da capacidade de encontrar satisfação em coisas simples e acessíveis.

 

Talvez, portanto, a verdadeira burrice seja a minha: ter tornado tão difícil obter satisfação hedônica justamente numa época em que nunca foi tão fácil obtê-la.

 

Todo mundo abre a Netflix e se diverte.

 

Eu preciso de Dostoiévski.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 29/09/2026
Alterado em 29/09/2026
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