
Se eu fosse amigo do Dandan, talvez pudesse pegar seu jatinho emprestado e ainda conseguir ingressos para assistir ao primeiro grande jogo de futebol americano no Maracanã: Dallas Cowboys contra Ravens.
Porque há amizades que servem para o espírito.
E há amizades que servem para levá-lo ao Rio de Janeiro com mais conforto.
Ontem, o flamengo do futebol americano jogou no Maracanã.
Os Dallas Cowboys, que são o maior time de qualquer esporte, entraram em campo no templo do futebol brasileiro — embora futebol americano, evidentemente, nada tenha a ver com futebol.
Mas eis a ironia perfeita: o jogo foi decidido com um chute.
Quer dizer, com um field goal, quando o kicker chuta a bola no “Y” para marcar três pontos.
No país do futebol, o futebol americano foi decidido com um chute.
Nem o melhor roteirista pensaria nisso.
Em um dos raros bons momentos de Donald Trump, ele disse que o futebol, que eles chamam de Soccer, durante a Copa do Mundo nos Estados Unidos, é o verdadeiro futebol — ao contrário do que eles chamam de Football.
E, devo admitir, existe aí um argumento etimológico curioso: football seria a junção de foot, pé, e ball, bola.
Já o futebol americano se joga primordialmente com as mãos.
Lança-se a bola oval, corre-se com ela, protege-se a bola com as mãos e só, muito de vez em quando, entra em cena o pé para decidir tudo.
Talvez seja justamente por isso que ele seja tão fascinante.
O primeiro jogo que vi foi o Super Bowl de 2014 — quer dizer, aquele disputado no começo de 2015, entre Seattle Seahawks e New England Patriots.
Na época, eu não entendia praticamente nada.
Mas entendi o essencial: no último lance do jogo, o time de Seattle, que tinha em mãos a possibilidade de vencer, tomou a decisão errada.
Em vez de correr com Marshawn Lynch, que era talvez o corredor mais temido da liga, resolveram lançar um passe para a end zone.
O passe foi interceptado.
E eles perderam o jogo.
Foi amor à primeira vista.
Depois disso, meu irmão teve uma ideia brilhante: gravar os jogos.
Como eles passam muito tarde, poderíamos assisti-los depois, pulando as inúmeras interrupções, revisões e intervalos que fazem parte da experiência americana de transformar um evento esportivo em uma pequena epopeia comercial.
Foi uma grande decisão.
E meu amor pelo esporte só aumentou ao longo desses mais de doze anos acompanhando a NFL.
E há ainda Jerry Jones.
Dono e dirigente dos Dallas Cowboys, com mais de 80 anos, ele é uma anomalia esportiva.
Não é comum que o dono seja também a grande figura dirigente do clube, muito menos que o faça já em idade tão avançada.
Mas Jerry Jones é assim.
E mais do que isso: ele é uma espécie de Eurico Miranda com Odete Roitman.
Ou melhor: uma síntese americana do dirigente que compreendeu que administrar também é produzir novela.
Ele transforma admiração em espetáculo, espetáculo em narrativa, e narrativa em discussão para o ano inteiro.
Ao ponto de até as líderes de torcida da equipe terem série na Netflix e estatuto de celebridade.
Jerry Jones falou do Brasil com carinho e com uma compreensão rara daquilo que significa realizar um jogo no Rio de Janeiro, cartão-postal do país, para a expansão da liga.
E eu entendo perfeitamente o apelo simbólico do Maracanã.
Embora, pessoalmente, eu preferisse como antes: em São Paulo.
Mesmo no Itaquerão do Corinthians.
Porque, como todo grande princípio geopolítico realmente importante, o meu se resume ao seguinte: é melhor quando é mais perto de mim.
Mas, sendo no Rio, eu só poderia ir de jatinho do Vorcaro mesmo.
Isso, claro, se ele ainda me presenteasse com um par de ingressos.
Porque amizade verdadeira, para mim, é isso: não aquela que apenas nos ouve, nos acolhe e nos compreende, mas aquela que nos coloca num jato e nos leva para ver os Dallas Cowboys no Maracanã. E algumas suíças também não seria nada mal…