
SEXO, VIOLÊNCIA, HUMANO como DIVERSÃO de outro ser HUMANO. Essa é a história do videogame The Witcher 3!
Um amigo meu me disse que acumulou cerca de 300 horas no jogo. Já este texto é bem mais curto, prometo. Mas, primeiro, quero falar de Heráclito.
Heráclito já dizia que, quando tentamos entrar pela segunda vez nas águas de um mesmo rio, ele já será outro.
E não apenas ele, o rio. Nós também mudamos.
Talvez seja essa uma das coisas mais estranhas da existência: tentamos voltar aos lugares, aos livros, às pessoas e até a nós mesmos, mas aquele que volta já não é exatamente aquele que esteve ali da primeira vez.
O livro mais famoso de Proust se chama Em Busca do Tempo Perdido.
Esse mesmo tempo que escorre pelas nossas mãos.
Quando eu o li pela primeira vez, eu era outro.
Não sabia praticamente nada de filosofia. Não sabia quem era Henri Bergson, cuja filosofia do tempo inevitavelmente aparece quando começamos a pensar Proust, e nem mesmo sabia quem era Santo Agostinho, que formulou aquela maravilhosa perplexidade diante do tempo: enquanto ninguém lhe perguntava o que ele era, parecia saber; quando precisava explicá-lo, já não sabia.
Eu era outro. E é justamente por isso que estou relendo Proust.
Porque o livro pode até ser o mesmo. O leitor não é.
Mudar é a única constante da vida.
Eu sequer consigo conceber uma vida na qual permanecêssemos os mesmos, impermeáveis às experiências que nos modificam, deformam, aperfeiçoam, decepcionam e transformam.
Sem o Recanto das Letras, talvez eu soubesse pensar.
Mas provavelmente não saberia transformar pensamento em texto.
A prática me ensinou o pensamento escrito.
Escrever tantas vezes me obrigou a descobrir não apenas como dizer aquilo que penso, mas também aquilo que eu realmente pensava.
O mundo mudou, assim como nós mudamos.
Vejam a Sony.

Houve um mundo no qual a Sony simplesmente não existia — e, evidentemente, também não existiam os produtos, os hábitos e os mercados que hoje fazem uma empresa desse tamanho movimentar bilhões.
Não havia streaming de música.
Não havia PlayStation.
Não havia toda essa indústria audiovisual doméstica tal como a conhecemos.
Mas os consumidores potenciais já existiam.
Então de onde vieram esses bilhões? Estavam onde antes?
De alguma maneira, uma empresa cria um produto, cria um desejo que antes não possuía aquela forma e, ao satisfazê-lo, parece materializar também um valor econômico que anteriormente existia apenas como possibilidade.
Quase como se o dinheiro também pudesse ser inventado.
Num mundo sem Sony, Netflix, Spotify, videogames e smartphones, talvez o tempo parecesse passar mais devagar.
Hoje escutamos praticamente qualquer música do mundo em segundos.
Em outro tempo, alguém poderia precisar sair de casa — talvez atravessar a cidade, talvez até se deslocar a cavalo — para ouvir músicos executando uma obra.
Em vez de filmes, as pessoas viajavam através dos livros.
Sem videogame, talvez fizessem mais sexo. Talvez brigassem mais. Talvez conversassem mais. Talvez praticassem mais violência.
Em suma: durante enorme parte da história humana, uma das principais formas de entretenimento de um ser humano era outro ser humano.
VOLTEMOS À QUESTÃO de The Witcher 3.
Não é difícil encontrar jogadores que dedicaram centenas de horas a RPGs enormes como esse.
Agora façamos uma experiência mental.
Com aproximadamente 200 horas disponíveis para leitura, dependendo naturalmente do ritmo de cada leitor, seria possível atravessar uma quantidade absurda de literatura.
Talvez até os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust.
Com 300 horas, acrescentem ainda Os Irmãos Karamázov, Anna Kariênina, A Montanha Mágica e outros milhares de páginas.
Estamos falando de algo próximo a dez livros entre os mais importantes já escritos.
Há incontáveis pessoas capazes de investir centenas de horas em um único jogo.
Quantas terão lido esses dez livros?
E aqui eu nem quero fazer um julgamento simplista de valor, como se videogame fosse necessariamente perda de tempo e literatura necessariamente ganho.
A pergunta que me interessa é outra:
que tipo de experiência produz maior transformação interior em nós.
Como a água do rio de Heráclito, boa parte do nosso tempo escorre pelas mãos.
Talvez o tempo seja como a concha que fazemos com as próprias mãos para beber água.
Conseguimos matar a sede.
Mas uma parte sempre escorre entre os dedos.
E talvez a ociosidade improdutiva seja justamente essa água que se perde enquanto nos saciamos.
Ela escorre quando permanecemos indefinidamente numa rede social sem sequer saber por quê.
Quando passamos de um reel para outro.
Quando procrastinamos.
Quando acordamos tarde sem necessidade.
Quando assistimos por inércia a coisas que nem sequer nos interessam.
Quando o tempo passa e, ao final, não conseguimos dizer exatamente onde ele foi parar.
Mas há experiências diferentes.
Há coisas que parecem reter o tempo.
Um livro que nos modifica.
Um pensamento finalmente compreendido.
Uma página escrita.
Uma conversa que permanece.
Uma obra que nos transforma suficientemente para que, anos depois, possamos voltar até ela e perceber que ela continua igual — enquanto nós já somos outra pessoa.
É por isso que prefiro beber diretamente do poço do tempo.
Daquele lugar raro em que a água não simplesmente escorre pelas mãos.
Ela fica em nós.