
Mary Shelley, autora de Frankenstein, construiu uma das ideias que mais me interessam na literatura: aquilo que chamamos de monstro talvez seja, muitas vezes, apenas alguém cuja história ainda não ouvimos.
Em Frankenstein, a criatura pede justamente isso: que sua história seja escutada antes que ela seja simplesmente condenada.
E talvez vocês só queiram conhecer a minha história — meus textos longos, minhas ideias, aquilo que eventualmente escrevo de útil — se, antes, gostarem um pouco de mim.
É por isso que eu bloggo.
Posto humor, fotos, comida, treino, hobbies, pequenas bobagens e, em outras palavras, a minha vida.
Se algumas dessas coisas são irrelevantes, é porque minha vida também é, em certa medida, irrelevante.Inútil.
Mas a felicidade também é inútil.
Aliás, talvez quase tudo aquilo que realmente possui valor na vida seja inútil.
Qual é a utilidade do amor? De uma flor? De uma bolha de sabão? De um abraço? Do gol do time do coração? De tu e eu?
Nenhuma.
Para todas as outras coisas, existe Mastercard.
As pessoas banalizaram muito a ideia de influência.
Não que eu seja um influencer, claro.
Mas veja o caso do jogador Gustavo Scarpa.
Ele recomendou A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, e a repercussão foi suficiente para levar o livro ao topo dos mais vendidos da Amazon Brasil.
E existe algo de muito bonito nisso.
Com um gesto verdadeiramente desinteressado, ele não estava divulgando uma aposta, uma bebida ou qualquer produto descartável.
Estava indicando literatura.
E, para mim, ainda por cima um dos melhores livros de um dos maiores escritores da história.
Curto, perfeito e devastador.
Quem comprou e leu o livro talvez tenha tirado da indicação mais proveito do que o próprio Scarpa ao fazê-la.
E é mais ou menos assim que penso meus textos.
Só há influência quando, de alguma forma, alguém se importa.
E, se eu gostaria de ter um público maior, não é propriamente por fama, dinheiro ou utilidade.
É porque tenho a impressão de que, se eu chegasse a mais pessoas, isso seria melhor não apenas para mim, mas talvez também para algumas delas.
É por isso que cito poemas, livros, discos, filosofia, filmes.
É por isso que dou meus pitacos sobre moda, política, humor e qualquer outra coisa que atravesse meu caminho.
Porque, se essas coisas chegarem a mais pessoas, tanto melhor para mim.
E, quem sabe, para elas também.
Por isso eu continuo.