
Sou naturalmente romântico.
Talvez eu tenha inventado a literatura de comédia romântica sofisticada no Recanto das Letras, assim como Woody Allen praticamente transformou essa fórmula em um gênero cinematográfico próprio.
É difícil falar de amor sem ser piegas ou cair no clichê.
Discípulo que sou de Ovídio, o amor sempre foi meu principal assunto e minha principal motivação. De sorte que, para escrever, preciso estar constantemente em estado de enamoramento.
Talvez seja esse, inclusive, o verdadeiro combustível da minha literatura: preciso amar alguma coisa — ou alguém — para ter sobre o que escrever.
Aprecio enormemente essa tradição literária, a do romantismo. É um gênero um tanto francês — e, se gosto tanto da literatura brasileira e da portuguesa, talvez seja justamente por sua histórica influência francesa.
E, se passei a gostar menos de certa literatura contemporânea, talvez seja também pela substituição dessa influência francesa pela americana, que muitas vezes me parece produzir uma narrativa mais jornalística, mais direta e, para o meu gosto, mais clichê.
Até Hemingway, em Adeus às Armas, vai ter de me desculpar.
Ele entende muito de whisky e de coisas viris. Seu amor parece estar mais na guerra, na ação e no combate. Mas, quando precisa falar propriamente de amor, falta-lhe, para o meu gosto, certa sutileza, certa delicadeza.
Não era sua especialidade.
De sorte que talvez justamente por isso, em alguns momentos, seu romance amoroso não me pareça inteiramente verossímil.
Agora, O Velho e o Mar é romântico à sua maneira.
Há ali quase uma história de amor entre o vetusto pescador e seu ofício. Entre o homem e aquilo que ele escolheu fazer da própria existência. Uma relação construída por repetição, sofrimento, insistência, intimidade e fidelidade.
E talvez seja exatamente aí que eu consiga compreender Hemingway.
Porque, assim como o velho cumpre seu ofício diante do mar, eu cumpro o meu: amar — e escrever sobre esse que talvez seja o mais terno dos sentimentos.
Amor.
Ou, em termos espinosanos, aumento de potência.
Sentir amor, de certa forma, é também algo egoísta e profundamente subjetivo. Porque, para Espinosa, quando amamos alguma coisa, experimentamos em nós mesmos a passagem para uma perfeição maior: uma alegria acompanhada pela ideia de sua causa.
O outro provoca algo em nós, mas aquilo que sentimos acontece dentro de nós.
Talvez seja essa uma das estranhas contradições do amor: acreditamos estar completamente voltados para outra pessoa quando, ao mesmo tempo, nunca sentimos tanto de nós mesmos em nós mesmos.
E talvez seja justamente por isso que continuo escrevendo sobre o amor.
Porque amar alguém é também descobrir uma versão de nós que somente aquela pessoa parecia capaz de fazer existir.
E, enquanto ela existir em mim, haverá literatura.