
Paulo Leminski escreveu versos belíssimos sobre carregar consigo o sonho enquanto deixava aos outros o sono.
CARREGO PESO DA LUA
Paulo Leminski
Carrego o peso da lua,
Três paixões mal curadas,
Um saara de páginas,
Essa infinita madrugada.
Viver de noite
Me fez senhor do fogo.
A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse, eu mesmo carrego.
Eu faço uma distinção parecida.
É incrível o poder regenerativo de uma boa noite de sono. Até mesmo eu, que odeio dormir, reconheço que, para viver melhor o dia, é preciso dormir bem.
Aquele sábio de Assim Falou Zaratustra que pregava o sono como virtude, não era tão estúpido como Nietzsche o pintou, assim como Quinca Borba dizia que Pangloss não era tão estúpido como Voltaire dizia.
Um pregava otimismo. Outro, que não é tarefa simples dormir, requer ficar o dia inteiro acordado… me parece bem sábio.
Também odeio sentir sono.
Quando o sinto, fico mal-humorado e indisposto.
Ironicamente — e tragicamente —, é justamente perto do horário de dormir que me sinto mais disposto. E, ultrapassada essa fronteira, adentrando a madrugada, melhor ainda.
Idealmente, eu dormiria somente quando começasse a ouvir os pássaros cantar.
Mas, para quem também gosta de aproveitar o dia, isso é terrivelmente contraproducente.
Além disso, se acordo ao meio-dia, levanto com mais sono e mau humor do que se tivesse acordado às cinco da manhã.
Então, para dormir bem, preciso trair minha natureza notívaga.
Sou um pouco como um vampiro que alcança seu êxtase à meia-noite — no meu caso, um êxtase criativo — e cuja potência vai despencando conforme raia o dia, até que, diante do sol, precisa finalmente se retirar.
O problema é que gosto do dia também.
E, para possuí-lo, preciso sacrificar justamente algumas das horas em que mais gosto de estar acordado.
Agora, sonhar eu já não gosto.
Principalmente dormindo.
Acordado, sou bastante sonhador.
Descansar eu sei para que serve. Mas para que serve sonhar?
É terrível sonhar com aquilo sobre o qual não temos controle. Muitas vezes, é justamente nesse extravio involuntário do sonho que aparece aquilo que nos assombra: o pesadelo.
Tampouco me agrada pensar no sono sem sonhos como imagem da possibilidade de jamais voltar a acordar — aquilo a que chamamos morte.
Já a petite mort, expressão francesa associada ao orgasmo, parece-me também uma espécie de pequeno sonho.
Um breve desaparecimento de si.
Talvez seja esse o único sonho noturno que me interessaria ter garantido.
Se, ao menos, toda noite, dormir me trouxesse a certeza dessa pequena morte de sonhar com você, talvez eu não precisasse mais acordar.
Mas os sonhos não obedecem.
Por isso prefiro sonhar acordado.
Sonhando acordado, posso escolher você.
E é somente assim, portanto, que nós dois podemos fazer amor.