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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


ÓRGIA DE POBRE

 



 


 



Não me recordo qual escritor fidalgo ou aristocrático escreveu, certa feita, que o amor, nas camadas mais pobres, era uma orgia de plebeus. Provavelmente deve ter sido Balzac, cuja impertinência desculpamos por sua bela prosa, além do fato de ser realmente difícil vestir-se elegantemente possuindo aquele corpanzil.

 

 

De todo modo, podemos extrair dessa ideia uma provocação interessante: talvez ele acreditasse que só poderia amar verdadeiramente porque sabia se comunicar.

 

Mas será que o amor depende da linguagem?

 


 

O AMOR QUE NÃO SABE DIZER SEU NOME

O que espanta no amor de Riobaldo por Diadorim é justamente a dificuldade de comunicá-lo. Um amor que não sabe se enunciar deve se transformar em um sentimento agonizante.

 

Riobaldo tem poucas letras, tropeça naquilo que sente, fala o tempo todo sobre a dificuldade de compreender as coisas — e talvez seja justamente aí que Guimarães Rosa revele que a linguagem do amor é muito diferente da linguagem do pensamento.

 

Podemos sentir alguma coisa muito antes de conseguirmos dar um nome a ela.

 

E talvez possamos passar uma vida inteira procurando esse nome. Como diz Shakespeare: 

 

What's in a name? That which we call a rose / By any other name would smell as sweet."

Qual a importância de um nome? A rosa não teria um aroma igualmente tão agradável se se chamasse de outro nome?

 


 

ENTRE O RUÍDO E A MÚSICA

A linguagem sedutora e a linguagem vulgar podem ser tão diferentes quanto o som de um ruído e o de uma música clássica.

 

Se sexo fosse realmente poesia e amor fosse prosa, não haveria necessidade da linguagem para amar.

 

Mas existe.

 

Ou pelo menos parece existir quando queremos transformar aquilo que sentimos em alguma coisa que possa alcançar o outro.

 


 

COMO DIZER A ALGUÉM QUE A AMO?

Como dizer a uma pessoa que a amo, revelar meus sentimentos, se careço das palavras necessárias para expressá-los?

 

E vou além.

 

Não dispondo eu das palavras certas para expressar o amor, será que sou verdadeiramente capaz de senti-lo?

 

Talvez essa seja uma das crueldades da linguagem: ela não apenas comunica aquilo que sentimos, mas às vezes parece determinar até onde conseguimos compreender o próprio sentimento.

 


 

AMAR ALGUÉM QUE NÃO ESTÁ PRESENTE

Ao mesmo tempo, a linguagem realiza um prodígio ainda mais estranho: ela dispensa até mesmo a presença da pessoa amada.

 

Posso falar com quem não está aqui.

 

Posso amar alguém separado de mim por uma cidade, um oceano, uma década ou pelo silêncio.

 

E foi assim que se inaugurou uma das mais belas instituições humanas: a carta de amor.

 


 

QUANDO O AMOR INVENTOU A POESIA

Através das cartas, o amor descobriu que poderia sobreviver à ausência. E, através da palavra, aquilo que não podia tocar o corpo passou a tentar tocar outra coisa.

 

Talvez tenha sido assim que nasceu a poesia amorosa.

 

Não literalmente, é claro: as Musas pertencem a outra genealogia. Mas, poeticamente, gosto de imaginar que Afrodite e Eros também tenham participado do nascimento de cada verso escrito por alguém que não conseguiu permanecer em silêncio diante da pessoa amada.

 

Porque, se ninguém jamais tivesse se apaixonado, talvez ainda houvesse poesia.

 

Mas certamente nos faltariam muitas das palavras mais bonitas que inventamos para suportar a distância entre uma pessoa e outra.

 


 

AFINAL, EXISTE AMOR SEM COMUNICAÇÃO?

Talvez exista amor sem comunicação.

 

O que talvez não exista seja amor compartilhado sem ela.

 

Posso amar em absoluto silêncio. Posso amar sem saber escrever, sem saber seduzir, sem conseguir explicar sequer a mim mesmo aquilo que sinto.

 

Mas, enquanto esse sentimento não encontra uma linguagem — uma palavra, uma carta, um gesto, um olhar —, ele permanece encerrado naquele que ama.

 

E talvez seja essa a diferença entre sentir amor e fazer com que o amor exista entre duas pessoas.

 

Amar pode começar no silêncio.

 

Mas, para chegar ao outro, o amor precisa aprender a falar.

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 19/09/2026
Alterado em 19/09/2026
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