
Elogiei muito o comercial da Apple com o Vini Jr. — e olha que era da época em que ele ainda era feio. Quer dizer: antes da feiura harmonizada.
Achei-o de muito bom gosto, com uma paleta de cores linda e muito bem filmado. Em poucos segundos, conseguia contar alguma coisa: mostrava Vini bailando silenciosamente, alheio ao barulho do mundo, graças ao poder de isolamento dos novos fones da Apple.
Era publicidade, evidentemente.
Mas também havia ali uma pequena peça audiovisual.
O mesmo acontece com alguns comerciais do GPT e com tantas outras peças publicitárias que, por alguns instantes, parecem esquecer que nasceram para vender alguma coisa e simplesmente começam a fazer cinema.
Isso me faz lembrar da sátira de Godard em Pierrot le Fou, quando, no meio de uma festa, as pessoas conversam como se estivessem recitando anúncios publicitários: shampoos, lingeries, carros, produtos. Como se a linguagem comercial já tivesse contaminado a própria maneira de falar.
Mas há também o movimento contrário.
A publicidade pode apropriar-se da linguagem artística.
E talvez seja justamente aí que as coisas fiquem interessantes.
Comerciais são um pouco desvalorizados artisticamente dentro do audiovisual, como se a presença do dinheiro impedisse a existência da arte.
Eu penso justamente o contrário.
Talvez um dos segredos da arte seja conseguir pegar o dinheiro de quem pretende lucrar com ela e usá-lo para o próprio objetivo artístico.
O sucesso está nessa dialética: no equilíbrio entre aquilo que pretende o dinheiro e aquilo que pretende o artista.
O anunciante quer vender um fone.
O artista talvez queira filmar um homem dançando sozinho no meio do caos.
Se ambos conseguem o que desejam, melhor ainda.
Desse modo, praticamente qualquer meio de produção capitalista pode servir para fazer arte: um comercial, um videoclipe, um curta publicitário ou até um short de Instagram.
O suporte não determina antecipadamente a qualidade daquilo que será produzido nele.
Uma câmera de cinema pode produzir uma porcaria de duas horas.
Um celular pode produzir trinta segundos belíssimos.
Aliás, deveria ser mais elogiada a capacidade de alguém contar alguma coisa em menos de três minutos.
Durante muito tempo, no cinema, quando se queria detratar o trabalho de algum diretor, dizia-se que seu filme “parecia um videoclipe”.
O próprio Spike Jonze veio justamente desse universo, dirigindo videoclipes antes de construir uma carreira no cinema e, muitos anos depois, realizar Her.
Como se dominar a montagem, a imagem, a música e o ritmo dentro de poucos minutos fosse alguma espécie de defeito.
Talvez seja exatamente o contrário.
Acho que, sobretudo nas faculdades de cinema e audiovisual, deveria haver uma atenção muito maior à escrita e à realização de peças breves: comerciais, videoclipes, curtas e pequenos exercícios narrativos.
Até porque surge uma pergunta bastante simples:
Se alguém não consegue roteirizar e filmar três minutos interessantes, o que exatamente acontecerá quando lhe entregarem noventa?
Embora, com certeza, exista uma crueldade particular na forma curta.
Talvez seja mais difícil fazer algo artisticamente relevante em três minutos do que em cento e dez.
Em três minutos, não há muito espaço para esconder o vazio.
Não há uma hora de enredo para sustentar uma imagem medíocre.
Não há quarenta páginas para preparar uma frase bonita.
Tudo precisa chegar mais rapidamente ao essencial.
E talvez seja justamente por isso que, em termos literários e de linguagem, aquilo que mais aprecio ler sejam contos, crônicas e cartas.
A brevidade do meio obriga a linguagem do escritor a encontrar todo o seu esplendor.
Ela não pode contar exclusivamente com o enredo para brilhar.
Uma frase precisa possuir alguma beleza por si mesma. Uma imagem precisa justificar sua presença. Um silêncio precisa dizer alguma coisa.
É a mesma exigência de um bom comercial, de um bom videoclipe ou de um pequeno filme de poucos minutos.
Às vezes existe também um belo argumento que simplesmente não possui densidade suficiente para virar romance.
E não há nenhum problema nisso.
É como uma linda concha sem uma pérola dentro.
Ela não fracassou por não produzir uma pérola.
É bela enquanto concha.
Ou como um belo casulo que jamais chega a virar borboleta, mas que, observado de perto, talvez já possua uma forma suficientemente bonita.
Talvez o erro esteja justamente em acreditar que toda pequena forma artística precise desejar transformar-se numa forma maior.
Um conto não é um romance que fracassou.
Uma crônica não é um ensaio incompleto.
Um videoclipe não é um filme que não conseguiu chegar aos noventa minutos.
E um short também não precisa ser apenas uma migalha audiovisual destinada a impedir que alguém deslize o dedo para o próximo vídeo.
Pode haver composição, ritmo, montagem, fotografia, ideia e sentimento em poucos segundos.
Talvez a verdadeira habilidade esteja justamente em saber parar.
Porque algumas histórias precisam de cento e dez minutos.
Outras precisam de três.
E algumas talvez sejam mais belas porque terminam antes que tenhamos tempo de nos cansar delas.