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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

ELA TEM UMA BELEZA COMO A DE MOLLY EM GATINHOS E GATÕES, NÉ?

 




 



UMA FOTOGRAFIA SOBRE A ESCRIVANINHA

Talvez menos conhecida do que a história que narro no meu texto anterior sobre a morte de Marat pelas mãos delicadas e cruéis de Charlotte, há a história de que John Hughes, diretor de cinema que consagrou a fórmula dos filmes adolescentes norte-americanos da década de 1980, teria visto uma fotografia de Molly Ringwald, aos 15 anos, e colocado a imagem em sua escrivaninha de trabalho.

 

Talvez olhando para ela em busca de inspiração, Hughes tenha escrito Gatinhos e Gatões exclusivamente para que Molly fosse sua protagonista.

 

O que Hughes viu de tão belo naquela garota meio estranha?

 


 

A GAROTA ESTRANHA DE JOHN HUGHES

Sem dúvida, Molly tem seu charme. A garota de A Garota de Rosa-Shocking, que talvez só ficasse ainda melhor de preto, parece uma cantora de new wave.

 

Depois há Clube dos Cinco, novamente colocando-a entre retratos juvenis tão estranhos quanto ela própria.

 

Hughes, vocês sabem, também fez aquele clássico absoluto da Sessão da Tarde da Globo: Curtindo a Vida Adoidado.

 

Hoje, os filmes adolescentes da tarde parecem oscilar entre High School Musical e Crepúsculo. Também há beleza em suas protagonistas, evidentemente, mas ela me parece obliterada pela beleza das personagens daqueles filmes adolescentes do passado. As de hoje talvez sejam até mais belas, mais repaginadas, mais perfeitamente produzidas — e justamente por isso menos esquisitas.

 

E talvez seja a esquisitice que faça falta.

 


 

UMA MADRUGADA NO TELECINE CULT

O filme de Hughes que mais me marcou, e que talvez seja aquele que mais cito, é inesperadamente um filme que ele nem sequer dirigiu. Foi produtor e corroteirista.

 

Naquele dia, o Telecine Cult exibia uma retrospectiva do diretor. No cair da noite, já adentrando a madrugada, liguei o canal pelo celular e estava começando um filme que eu jamais havia visto, chamado Alguém Muito Especial.

 

Vocês sabem: não há nada pior para um cinéfilo do que começar a assistir a um filme já em andamento.

 

Só talvez seja pior deslocar-se até a Avenida Paulista para assistir a uma sessão de Dançando no Escuro, de Lars von Trier, descobrir que os ingressos estão esgotados e ter de retornar para casa.

 


 

A GAROTA QUE ELE NÃO CONSEGUIA ENXERGAR

A história é clichê.

 

Uma bela garota alva, de visual tomboy e aparência andrógina — dessas que, só de olhar, você não consegue determinar qual seria sua predileção afetiva ou sexual, talvez nenhuma — tem como melhor amigo um garoto que consegue um encontro para o baile do colégio com a garota mais bonita da escola, que aceita sair com ele apenas para dar o troco no rapaz mais popular que a rejeitou.

 

É claro que as coisas não poderiam terminar simplesmente assim.

 

Desse filme, lembro claramente de um close-up no rosto da garota e da decepção que surge quando ele conta que agora não tem com quem ir ao baile.

 

Ela pergunta, com expectativa estampada no rosto, se ele não teria ninguém em mente para levar.

 

Ele responde que não.

 

Como se sua melhor amiga nem sequer fosse uma hipótese cogitada.

 


 

A BELEZA QUE ESTAVA ALI O TEMPO TODO

E, no final, ele finalmente descobre aquela beleza andrógina que esteve diante dele o tempo inteiro.

 

Descobre nela — e talvez dentro de si próprio — sentimentos adormecidos que nem sabia que possuía.

 

O clichê está na história.

 

O que não é clichê é aquela aparência meio exótica, meio andrógina, fluida, de difícil definição. Esse tipo particular de beleza das protagonistas de Hughes.

 


 

A BELEZA QUE NÃO SABEMOS DEFINIR

Talvez não seja a beleza clássica, consagrada desde a época dos gregos.

 

E talvez, justamente por isso, seja tão mais especial.

 

Existe uma beleza que reconhecemos imediatamente porque já aprendemos que ela é bela. Está nas proporções, na simetria, nas esculturas, nas revistas, nas telas e em tudo aquilo que durante séculos nos ensinaram a admirar.

 

Mas existe outra que produz primeiro uma pequena estranheza.

 

Você olha novamente.

 

E mais uma vez.

 

Não porque já saiba exatamente por que aquela pessoa é bonita, mas porque ainda está tentando descobrir.

 


 

A BELEZA QUE FAZ ESCREVER

Talvez tenha sido alguma coisa assim que John Hughes enxergou naquela fotografia de Molly aos 15 anos sobre sua escrivaninha.

 

Não uma beleza que simplesmente servisse para ser contemplada, mas uma beleza que sugerisse uma personagem.

 

Uma história. Um filme inteiro.

 

Não à toa esse tipo de beleza inspira alguém a escrever histórias tão belas.

 

Ou, ao menos, este texto.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 18/09/2026
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