
Imagine viver num mundo hipotético no qual só houvesse cinema brasileiro. Com certeza, eu não gostaria de cinema. Jamais teria uma película cinematográfica tatuada no braço.
Culturalmente, sem dúvidas, quando comparado a outras artes, como a literatura e a poesia, nosso cinema é tão fétido quanto o filme do Bolsonaro, tão fétido quanto nossas ruas ou o STF.
Vivemos na era da superficialidade. Então, se para fazer sucesso você precisa rebaixar o conteúdo em nome do superficial, essa parece ser a lógica do cinema nacional.
E eu me sinto culpado porque o cinema que fez diferença no mundo não foi feito apenas por profissionais técnicos, mas por cinéfilos, amantes do cinema, sobretudo do cinema independente, que escreveram e fizeram grandes filmes que nós amamos. Filmes nos quais centenas de pessoas trabalham movidas, muitas vezes, pela paixão de um homem só.
Como dizia Godard, éramos pessoas que amavam os filmes uns dos outros e queríamos fazer filmes de que também pudessem gostar aqueles que faziam os filmes que nós amávamos.
É, de fato, uma vergonha que eu não tenha nem sequer tentado dar alguma contribuição ao cinema nacional. Não leguei nenhum roteiro, nem mesmo um argumento.
E permiti que filhos de atores globais, Porchat, Gregório e os Enzos Celularis da vida produzissem nossos filmes. Nesse sentido, acho que, sim, é pertinente falarmos em globolixo. Vivemos a rede globolização do cinema brasileiro.
O Rio de Janeiro não é Los Angeles. Mas o problema é que São Paulo também não é Nova York.
Culturalmente, sempre foi o Nordeste que nos carregou nas costas — esse mesmo Nordeste que sulistas e sudestinos tantas vezes detratam e envergonham com seus filmes.
As produções nacionais nos envergonham.
Não moralmente, porque isso nada quer dizer. O cinema não é uma arte moral. Envergonham-nos pela baixa qualidade artística.
Falar em uma estética nacional no cinema é forçar a barra. Eu não consigo elencar dez filmes nacionais que tenham me marcado de alguma forma. Talvez nem três.
O próprio Cinema Novo já nasceu velho em comparação com a Nouvelle Vague. Sempre atrás de tudo.
Agora, os streamings vendem corrida dos bichos como cópia de Round 6 ou novelas da Globo com duração de 110 minutos.
E seguimos chamando isso de cinema.
Mas é fácil demais ficar sentado assistindo a tudo isso e reclamar.
Se acredito tanto no cinema, se amo tanto essa arte a ponto de carregá-la literalmente marcada no corpo, talvez a minha crítica também deva se voltar contra mim.
Porque eu poderia ter escrito.
Poderia ter tentado.
Poderia ter fracassado.
Poderia, ao menos, ter deixado um argumento ruim numa gaveta em vez de apenas reclamar dos filmes ruins que chegaram às telas.
Não fiz. Ou fiz?
Essa é a minha mea culpa.
Porque, particularmente, apenas meu primeiro esboço de roteiro que publiquei aqui, que jamais terminei, é melhor do que uns 80 por cento do que já vi da produção nacional.