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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


RECANTO DAS LETRAS E “O ÓDIO” 

 



 

EU PODERIA MUITO BEM TER FEITO ESSE FILME: O ÓDIO.

 

 

O ódio não é o contrário do amor. O contrário do amor é a indiferença.

 

O ódio, na verdade, é mais fiel do que o amor; quando ele se concretiza, chamamos de vingança. A vingança é quando o ódio se torna paixão. E a paixão é o primeiro estágio do amor…

 

Escrito e dirigido por Mathieu Kassovitz, de quem vocês vão se lembrar não propriamente como diretor, mas como o ator que faz o par romântico de Amélie Poulain. Ele mesmo é de origem argelina, como tantos franceses.


 


 

UMA PARIS ODIOSA

Mas, ao contrário da Paris amorosa, dos Champs-Élysées, do Arco do Triunfo, das grifes e da Torre Eiffel, essa mostra uma Paris odiosa, mais real, como a dos irmãos Dardenne, Haneke e Gaspar Noé.

 

O estopim foi um caso real ocorrido em 6 de abril de 1993: Makomé M’Bowolé, um jovem zairense de 17 anos, foi morto com um tiro na cabeça por um policial enquanto estava sob custódia, em Paris. Kassovitz ouviu a notícia no rádio, foi ao local e encontrou pessoas reunidas em luto. Aquilo o marcou profundamente, e ele começou a escrever o roteiro praticamente imediatamente.

 


 

O ÓDIO SÓ PODERIA SER CONTADO PELO CINEMA

Da mesma forma que algumas histórias só poderiam ser contadas pelo método interativo do videogame, O Ódio só poderia ser contado pelo cinema, intercalando trechos reais, documentário com ficção.

 

A partir daí, ele cria seu alter ego, interpretado por Vincent Cassel, Vinz.

 

Um judeu (Vinz), um árabe (Saïd) e um negro (Hubert), para mostrar que a questão não dizia respeito a uma única comunidade, mas a uma condição compartilhada pela juventude periférica.

 

O Ódio, que apresenta Vincent Cassel, é a demonstração de que uma mulher bonita, como Monica Bellucci, tem a capacidade de transformar até ele em um sex symbol, assim como a bela Natalie Portman em Cisne Negro, já que sempre o achei bem mais ou menos como ator.

 


 

FRANÇA, BRASIL E A PERIFERIA

E eu poderia ter escrito, ou gostaria de ter escrito, porque a França é parecida com o Brasil, principalmente atualmente, com o sucesso do futebol decorrente da miscigenação. E isso se dá mais na periferia, igual aqui em São Paulo, na qual se encontram japoneses, italianos, nordestinos, alguns árabes e, agora, africanos.

 

Quando ensaiei escrever roteiros, eu tinha em mente esse universo do qual eu vi, baseado na minha história real. Eu gostaria de fazer um filme chamado Crianças, baseado em Kids, de Larry Clark, com roteiro de Harmony Korine, mas baseado em São Paulo e adaptado ao lugar onde moro. Apesar de não ter escrito, tenho as cenas e a ambientação todas na minha cabeça, pois eu já as vivi.

 

E outro, como sempre tive tino comercial, é baseado na experiência minha e de meu amigo, um playboy da PUC, mas que acabou comprando um cargo para vender bebidas alcoólicas nos bailes funks de rua, chamados fluxos. Por si só, já daria uma boa história e seria fácil de vender.

 


 

O DIONISÍACO COM UMA ESTÉTICA ELEGANTE

Mas, assim como Kassovitz, eu queria unir o dionisíaco da periferia, da violência, da sexualidade e do exagero, com uma estética elegante, com uma linda fotografia, uma mise-en-scène impecável, muitos planos-sequência e uma realização quase de teatro, com diálogos filmados com a câmera na mão, passando de um personagem a outro, como em Lars von Trier.

 

Porque — vocês sabem — eu tenho esse jeito de “moço rico, com um pézim na favela”, assim como Kassovitz, filho de cineasta e da burguesia francesa, mas que convivia com imigrantes do subúrbio parisiense.

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 22/08/2026
Alterado em 23/08/2026
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