SE VOCÊS ME ACHAM ESTRANHO HOJE,
É PORQUE NÃO ME CONHECERAM ANTES...

Desde tenra idade eu tenho as minhas idiossincrasias. Por exemplo, quando eu tomava banho, usava duas toalhas: enrolava-me com uma e a outra eu colocava no sofá da sala. Então, depois que saía do banho, em vez de me enxugar como uma pessoa normal (quer dizer, criança, tá, ok, eu era pré-adolescente... O quê? Tá bom, eu confesso: eu já era adolescente também), eu enrolava uma toalha no corpo e, com todo mundo na sala — meu pai, minha mãe e meu irmão, às vezes assistindo ao jornal —, saía do banheiro praticamente pelado, envolto apenas pela toalha. Sentava-me sobre a outra toalha, apoiado nos joelhos, no sofá da sala, até me secar. Só então voltava ao banheiro para me trocar.
Talvez isso explique o fato de eu me identificar com o Snoopy, que também tem seus hábitos estranhos, como dormir em cima da casinha de cachorro, e não dentro dela.
Além disso, eu tinha muito medo de dormir sozinho no meu quarto e dormia junto com os meus pais. Lembro que acordava de manhã ao som de O Pulo do Gato, programa histórico que meu pai usava como despertador para ir trabalhar.
Estou falando de uma época em que eu já estava, pelo menos, na quinta série. Se continuei fazendo isso na sexta, acho que minha memória recalcou esse período e só terei acesso a ele por meio da psicanálise. Mas eu era bem pequeno de tamanho.
Sim, eu já conhecia a beleza do sexo oposto e, ainda assim, dormia com os meus pais. Só para ficar com alguém eu escondia esse fato. Vocês veem que, na verdade, eu não mudei tanto assim...
Ainda no âmbito escolar, eu jamais comia na escola e não suportava o cheiro do intervalo. Todos iam lanchar e, pelo menos no prezinho e nas primeiras séries, eu ficava isolado observando, comendo minhas cinco bolachas Traquinas de morango, que meu irmão embrulhava para eu levar. Das cinco, eu comia apenas duas, porque dava as outras para quem pedia, já que eu sempre tive bom coração. Ou, dizendo de outra forma, sempre fui trouxa.
Meu irmão me levava para a escola até fazer dezesseis anos e conseguir um emprego. Lembro que minha professora, Lilliam, tinha um carro cuja placa começava com CMA. Guardei isso até hoje. E, quando eu não o via estacionado na calçada, já ficava feliz, porque significava que ela tinha faltado e não haveria aula. Bons tempos...
Na infância, eu jamais gostei de leite. Talvez só o tenha bebido nos primeiros meses de vida. O cheiro, a textura, tudo me causava nojo e repulsa. Só de sentir o cheiro já me incomodava. Minha mãe me dava suco de laranja.
Como eu era muito difícil para comer, a tia precisava misturar o arroz com raspas de maçã para me enganar. E aí eu comia um pouco. Novamente, pouca coisa mudou, a não ser que agora eu tenho barba. E meu nariz é maior.
Ele era retilíneo e aquilino. Só que, quando fui operar da adenoide e da carne esponjosa, fizeram isso que vocês veem atualmente nas minhas fotos.
Aliás, nesse dia eu tentei fugir do hospital. Minha mãe teve de me capturar quase na Praça da República, no centro de São Paulo, sendo que a operação seria na Santa Casa, na região de Santa Cecília, perto do Mackenzie. Ou seja, consegui fugir cerca de dois quarteirões.
Lembro que, depois da operação, minha garganta estava muito ferida e era difícil engolir. Mas a primeira coisa que pedi para minha mãe foi alguma coisa para comer. Despreparada e sem dinheiro, ela contou as moedas que tinha e foi comprar uma coxinha na padaria. Eu a devorei em duas ou três mordidas, de tanta fome. Parecia que fazia um dia que eu não comia. E, considerando o jejum e o tempo da cirurgia, fazia mesmo.
CONTINUA..
Este texto já está triste, longo e nostálgico demais. Portanto, fim.
Outro dia eu revelo outros detalhes constrangedores da minha vida, que, com certeza, não faltam...