PERDIDOS À NOITE NO RECANTO DAS LETRAS

Eu assino três plataformas de streaming voltadas ao cinema cult e de arte, mas precisei recorrer ao Amazon Prime para rever um clássico como Perdidos Na Noite.
Como um filme tão transgressor consegue ser, ao mesmo tempo, tão leve, engraçado e triste? Seria ele o exemplo ideal do grande estilo nietzschiano: a mistura entre o elevado apolíneo e o dionisíaco devastador? Talvez seja por isso que Gaspar Noé e Harmony Korine gostem tanto dele e tentem reproduzir, cada um à sua maneira, esse universo estranho e aparentemente aleatório. O chapéu que Noé costuma usar, como mostra em seu Instagram, certamente não é por acaso.

É um filme casto e lascivo ao mesmo tempo. Contém cenas pesadíssimas, mas filmadas com um pudor quase elegante, recorrendo a recortes, elipses e metáforas visuais. A cena do estupro de Joe Buck e de sua namorada, por exemplo, é construída apenas por fragmentos, alternando lembranças e imagens do presente. Já os orgasmos surgem sugeridos por metáforas cinematográficas e televisivas, nunca mostrados de maneira direta.
Também são ambíguos os elementos freudianos. A relação afetiva, quase incestuosa, entre o cowboy e sua avó talvez explique seu sonho de ir para Nova York tornar-se gigolô de mulheres maduras, justamente da idade dela. Mas, se até a septuagenária Xuxa está com a virilha em dia, quem irá julgá-lo, não é mesmo?
O sonho de Buck logo é frustrado por um pequeno vigarista local, brilhantemente interpretado por Dustin Hoffman, que encontra o equilíbrio perfeito entre um personagem excêntrico, coxo e profundamente humano, sem jamais cair na caricatura. Talvez por isso eu o considere superior a Al Pacino.
A improvável amizade entre os dois — um maltrapilho que se veste bem apenas para enganar incautos como o próprio Buck — constitui o verdadeiro coração do filme. Até o detalhe de seu terno amarelo, elegante e ao mesmo tempo desbotado, parece carregar significado.
Há ainda a constante relação entre religiosidade e perversão sexual. O suposto cafetão, reprimido sexualmente, demonstra interesse por Buck, mas o faz ajoelhar-se diante de um enorme Cristo para rezar. Como diz o ditado: ajoelhou, tem que rezar. A própria cena funciona como uma metáfora para o sexo oral, condensando em poucos segundos a ironia, a culpa e a religiosidade que atravessam toda a narrativa.
Vale a pena rever. E, para quem nunca assistiu, vale ainda mais a pena descobrir por que Perdido à Noite continua sendo um dos filmes mais ousados, humanos e elegantes da história do cinema.