
Esse curta-metragem de 1956 talvez seja o verdadeiro marco inaugural da Nouvelle Vague.

O Truque do Pastor começa, simbolicamente, com um jogo de xadrez. No xadrez, o chamado "mate do pastor" consiste em um xeque-mate rápido, normalmente aplicado com o auxílio do bispo. Em seu filme, dirigido por Jacques Rivette a partir de um argumento de Claude Chabrol, quem movimenta a primeira peça é Claire.
Casada com Jean, um homem bem mais velho, ela encontra o amante, que lhe presenteia com um casaco de pele. O problema é escondê-lo do marido. Surge então o primeiro lance: o amante sugere que ela finja ter recebido um aviso dos Correios para retirar a encomenda. Claire convence Jean a buscá-la. Mas, quando ele volta, o casaco desapareceu. Dentro da mala há apenas um casaco barato.
Ela procura o amante para contar o ocorrido. Ele reage com uma indiferença curiosa, quase suspeita. Teria sido ele mesmo quem retirou o casaco? Afinal, era o único que conhecia o plano. Há até um rápido enquadramento que parece mostrar um casaco semelhante sobre a cadeira onde ele está sentado, como se Rivette deixasse uma pista deliberadamente ambígua.
Enquanto isso, outra peça entra em jogo: a irmã de Claire, que há muito tempo não a visitava. Quando Claire pergunta sobre seus relacionamentos, ela responde ironicamente: "Qual deles?". Antes de ir embora, admira um casaco da irmã, que acaba lhe sendo dado. Em seguida, faz questão de afirmar: "Não sou ladra". Num filme como esse, uma frase dessas nunca é gratuita.
O tabuleiro muda completamente na festa daquela noite. O amante não comparece, o que sugere que conhecia o círculo social da família e preferiu manter distância. Então surge a grande revelação: a irmã aparece usando justamente o casaco de pele desaparecido. Jean o retira delicadamente de seus ombros, enquanto Claire percebe, enfim, que perdeu a partida.
Resta o enigma da esfinge. Jean e o amante estavam em conluio desde o início? O objetivo era aproximá-lo da irmã de Claire? Ou tudo não passa de uma sucessão de coincidências cuidadosamente encenadas por Rivette? O filme jamais responde, e talvez resida aí sua força. Assim como a eterna dúvida sobre a traição de Capitu, O Truque do Pastor permanece aberto, convidando o espectador a continuar a partida depois que a tela escurece.
Outra surpresa deliciosa é ver, antes de realizarem seus primeiros longas e se tornarem dois dos maiores cineastas da história, Jean-Luc Godard e François Truffaut fazendo pequenas aparições no filme do amigo.



Xeque-mate.