BELEZA NEGRA, FEIURA BRANCA

Este é Peter Schmidt, que recentemente participou do Roda Viva, defendendo mais espaços sem telas no mundo atual. Além do português impecável, chama a atenção sua jovialidade e sua aparência. Eu diria: sua beleza. Mas, para além da beleza física, há também a beleza do pensamento.
Apesar disso, o padrão loiro, de olhos azuis, continua sendo tratado, em nossa sociedade, como o ideal de beleza. Houve uma época em que o racismo científico transformou a suposta superioridade racial em questão acadêmica, preconizando que o auge do homem, tanto em beleza quanto em moralidade e inteligência, era a chamada raça ariana: loiros de olhos azuis. Tudo isso amparado, dizia-se, pela ciência, o que apenas demonstra que a ciência também revisa suas próprias certezas à medida que novos conhecimentos surgem.
Herdeiros dos arianos, que, segundo se diz, foram os primeiros povos a falar a língua da qual todas as outras derivariam — do sânscrito ao latim, ao grego e, posteriormente, às línguas modernas, como o português, o inglês e o francês. Herdeiros, talvez, também da “besta loira” citada por Nietzsche em A Genealogia da Moral, que teria criado o conceito de “bom”. Em resposta, os oprimidos inverteram essa lógica: se ele é bom, eu sou bondoso; se ele é forte, ele é mau. É assim que surgem as oposições entre bom e ruim, de um lado, e bem e mal, de outro.
Há ainda a ironia de que Adolf Hitler e muitos integrantes do Partido Nazista pouco tinham da aparência que exaltavam. Nem seu cabelo, nem seus olhos correspondiam ao ideal ariano que defendiam. Tampouco alguém diria que seu famoso bigode — hoje diríamos ser de cobrador — fosse um atributo de beleza.
Também sabemos que existem inúmeros brancos, de cabelos claros e olhos azuis, que simplesmente não agradam ao olhar. Como diz a velha piada: olho claro em gente feia é igual a barraco com piscina.
Ao mesmo tempo, há negros e negras que são verdadeiras beldades — algo que, imagino, Luís Roberto certamente assinaria embaixo, a quem desejo pronta recuperação.
Quanto a mim, prefiro um rosto bonito como o de Peter Schmidt, justamente porque sua aparência parece encontrar equilíbrio com sua forma física e, sobretudo, com o conteúdo. Antes de uma boca bonita falando, um cérebro bonito pensando.
E, além do mais, eu odiaria ser branco e precisar tomar sol para ficar parecido com aquilo que já sou naturalmente: douradamente belo.
