MEU IRMÃO DEMITIU A CHEFE DELE!

Certa feita, meu irmão chegou demitido em casa antes do meio-dia.
Não na casa dele, da esposa e do filho, mas na primeira: a de irmão, no caso, a minha e a da minha mãe.
Digno e constrangido, talvez com receio de dar a triste notícia à mulher, passou primeiro por lá.
Jogamos videogame para consolá-lo. Não muito, porque eu sempre acabo vencendo esses confrontos.
Ele trabalhava havia mais de dez anos na Kuehne+Nagel, uma grande empresa alemã do ramo de transporte e importação. A lógica capitalista não levou em conta seu casamento recente, seu filho pequeno, seu bom comportamento e nem mesmo seu desempenho na hora de mandá-lo embora.
Afinal, quanto mais tempo permanecesse na empresa, mais caro seria demiti-lo depois. Muito melhor redistribuir seu serviço entre funcionários que ainda não estão 100% ocupados durante sua jornada de oito horas.
Isso contraria, ao menos na prática, a lógica de Adam Smith, segundo a qual o lucro da empresa capitalista seria positivo porque permitiria contratar mais funcionários e ampliar a produção.
Naquele período de desemprego, outra empresa alemã, também multinacional, me chamou para trabalhar. Antes de pensar em mim, que sou solteiro e talvez até preguiçoso, pensei no meu irmão, que é casado, pai e trabalhador. Indiquei-o para a vaga. Ele foi aprovado e continua lá até hoje.
E é aqui que chegamos ao título deste texto: a chefe que ele demitiu.
No momento, meu irmão é justamente aquele funcionário que, supostamente, não estava 100% ocupado. Por isso, herdou o trabalho de uma funcionária, que acabou sendo demitida. Espero apenas que ela tenha um irmão. Depois, sua própria chefe também foi dispensada, e o trabalho de ambas passou para ele, que continua recebendo exatamente o mesmo salário.
Não esperemos que o capital siga a lógica de Adam Smith e valorize meu irmão, promovendo-o a chefe.
Afinal, seu trabalho praticamente triplicou e hoje ele executa funções que antes pertenciam à sua superior. Talvez ela tenha sido dispensada pelo mesmo motivo que meu irmão foi na primeira empresa alemã: tempo demais de casa. Pouco importa se tem família, filhos ou uma boa trajetória profissional.
O capitalismo produz riqueza e possui extraordinária capacidade de organização econômica.
Mas não nos esqueçamos de que esse mesmo capitalismo, em sua busca incessante por lucros, também foi capaz de transformar seres humanos em mercadorias, institucionalizando o comércio de escravos e negociando, inclusive, participações nesse comércio de forma legal.
Felizmente para o capital — e para o meu irmão —, desta vez foi o meu irmão quem demitiu a chefe dele.