TRUFFAUT/GODARD

Da mesma forma que Truffaut escreveu Hitchcock/Truffaut — um livro de dois gênios em diálogo, responsável por tornar Hitchcock cult e consolidar a expressão "cinema de autor" —, ele, que antes era conhecido apenas como um diretor competente de Hollywood, passou a ser visto como um verdadeiro autor.
Na época, Truffaut ainda tinha feito poucos filmes e era conhecido principalmente na França. Para Hitchcock, ele era mais o jornalista e crítico da revista Cahiers du Cinéma do que um cineasta. O resultado da entrevista não foi apenas essa obra, que mais tarde virou livro e depois documentário. Ela também ajudou a popularizar a ideia, defendida pelos críticos da Cahiers du Cinéma, de que o verdadeiro autor de um filme é seu diretor. A grande estrela deixa de ser o produtor ou o ator para ser o cineasta. Podemos chamar isso de "efeito Simpsons": da mesma forma que o protagonismo passou de Bart para Homer, no cinema ele passou dos atores e produtores para o diretor.


Truffaut trabalhou junto com Godard neste curta-metragem, que narra a história de uma mulher presa durante uma inundação que pega carona com um desconhecido para chegar a Paris. Mas não é só isso. A colaboração surgiu de filmagens reais feitas por Truffaut durante a inundação de Paris, em 1958, quando ele ainda nem havia dirigido seu primeiro longa-metragem. Há tomadas aéreas e registros documentais da cidade inundada.

Posteriormente, em 1961, ano do lançamento do curta de quinze minutos, disponível no Filmicca, Godard inseriu a narração escrita por ele, feita pela protagonista, além de sua montagem característica, que mistura erudição com um humor à la Buster Keaton.

A montagem é sublime. Ela conecta passagens reais da enchente aos momentos de diálogo, acelera a ação como nos filmes mudos e, ao mesmo tempo, substitui o diálogo tradicional pela narração da protagonista, que conduz a história. O resultado é disruptivo e de enorme elegância formal.

Também é digno de nota como Godard e Truffaut eram tão diferentes na origem, na personalidade e na maneira de enxergar o mundo. A afinidade entre ambos era, sobretudo, o cinema, e isso bastou para torná-los grandes amigos. Até que a própria arte os separou, primeiro por divergências estéticas e, depois, principalmente, por diferenças políticas.