
José Mourinho, hoje treinador do Real Madrid, viveu o auge da carreira quando passou a se autodenominar, não sem certa arrogância, The Special One. Na época, sua maior rivalidade era com Rafa Benítez. Depois que a esposa de Benítez criticou o estilo de jogo de Mourinho, ele respondeu com uma frase que muitos classificaram apenas como uma provocação: disse que ela deveria se preocupar mais com a dieta do marido.
À primeira vista, parece apenas uma ironia. Mas, pensando melhor, talvez seja uma crítica muito mais profunda do que aparenta.
A observação de Mourinho faz sentido, sobretudo hoje. Qual é a autoridade de alguém incapaz de cuidar do próprio corpo? Como alguém que não consegue governar os próprios hábitos pretende governar uma família, liderar um grupo de jogadores ou administrar uma instituição? O corpo comunica. E a negligência também comunica.
Não se trata de estética, mas de coerência. Liderança exige exemplo. O modo como alguém conduz a própria vida sempre antecede a maneira como pretende conduzir a vida dos outros.
Essa ideia já estava presente na Grécia Antiga, posteriormente analisada por Michel Foucault. Os gregos organizavam sua ética em torno de duas grandes questões: a vida boa e a liberdade. Numa sociedade aristocrática, marcada pela existência da escravidão, não surpreende que a liberdade tenha se tornado o maior dos ideais. O movimento dialético só pode produzir o seu contrário mesmo.
Daí nasce também a importância do oikos, a administração da casa, origem da palavra "economia". Para os gregos, quem pretendia administrar a cidade precisava, antes, ser capaz de administrar a si mesmo. O governo de si era a condição para qualquer governo sobre os outros.
Foi justamente isso que Foucault identificou ao estudar os antigos. Ele descreve a existência como uma relação agonística: o corpo é um campo permanente de disputa entre forças. De um lado, forças reativas, que conduzem à submissão, às superstições, ao além-mundo e à dependência. De outro, forças ativas, criadoras, voltadas para o cuidado de si, para a saúde, para a produção da própria vida e para a criação.
Para os gregos, uma vida verdadeiramente boa e livre era aquela em que predominavam as forças ativas. Essa ética não terminava no indivíduo: ela se projetava sobre a cidade. Uma boa pólis era justamente aquela capaz de favorecer homens livres porque formava indivíduos capazes de governar a si próprios.
Por isso, causa estranheza ver pais de família, comentaristas, políticos ou moralistas julgando a vida alheia enquanto demonstram não possuir sequer domínio sobre si mesmos. Quem não consegue administrar o próprio corpo dificilmente pode reivindicar autoridade moral para administrar qualquer outra coisa.
Talvez Mourinho tenha sido mais filósofo do que imaginava. Sua provocação não dizia respeito apenas ao peso de Rafa Benítez. Dizia respeito ao princípio mais antigo da política ocidental: antes de governar os outros, governe a si mesmo.