CONTRA O RECANTO DAS LETRAS COMO REDE SOCIAL!

O meu texto sobre o Mounjaro ter duas leituras, enquanto os publicados logo abaixo ultrapassam uma centena. Embora eu não o tenha divulgado pelas redes sociais, como eles, provavelmente, revela uma falha nossa como indivíduos, como país e como plataforma.


O Brasil está entre os países que mais apostam e é um dos maiores consumidores de redes sociais do mundo. Era inevitável que esse comportamento acabasse sendo transportado para o Recanto das Letras. Muitos passaram a utilizá-lo como mais uma rede social, baseada na troca de leituras e comentários entre amigos, naquilo que chamo de 69 literário.
Textos sem conteúdo, que mais parecem antigos scraps ou publicações que caberiam melhor no Facebook, sobejam na plataforma. Escreve-se sem qualquer preocupação com estilo, construção ou linguagem. O objetivo deixa de ser escrever bem e passa a ser receber uma leitura de volta.
Nem irei falar da identidade visual. A média de idade dos usuários faz com que muitos sequer dominem recursos básicos de apresentação do próprio texto.
Sou totalmente contra esse uso do Recanto das Letras. Se a intenção é apenas publicar qualquer coisa e divulgá-la pelas redes sociais, ora, por que não permanecer nas próprias redes sociais? Elas já existem para isso.
O Recanto deveria ser um espaço onde o texto viesse antes da reciprocidade. Enquanto a leitura for apenas uma moeda de troca, a literatura continuará perdendo lugar para aquilo que ela nunca deveria tentar ser: mais uma rede social.
A minha postura diante desse problema é continuar fazendo o que faço: ler, estudar e treinar, para ter conteúdo e não precisar recorrer a este uso como rede social do Recanto das Letras no futuro. Esse é o meu remédio contra a ignorância e o obscurantismo.
Eu sei que, muitas vezes, o conteúdo é denso. Por isso, de vez em quando, faço uma pausa com humor. Mas vocês também precisam se esforçar para melhorar. É preciso ter brio para absorver conteúdo; caso contrário, continuarão alimentando essa roda perpétua da ignorância.
Se alguém não consegue ler o conteúdo escrito por um rapaz de 34 anos, como pretende ler A Metafísica dos Costumes, de Kant?
É refletindo sobre isso que compreendo a indignação do professor Clóvis de Barros Filho.