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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

EXPLICANDO A FINAL DA COPA DIDATICAMENTE

 


 


 

Messi perdeu para a Espanha, seu alter ego. Sua verdadeira nação, onde cresceu e jogou desde a infância. Até a morte de Maradona, ele parecia mais espanhol do que argentino; depois, tornou-se definitivamente argentino, a nação onde nasceu.

 

Se Messi tivesse defendido e se naturalizado pela Espanha, provavelmente ela já seria tetracampeã mundial. Ele teria se despedido da Copa com mais um título, e a final contra a Argentina talvez tivesse sido decidida nos 90 minutos, com dois ou três gols seus. Já a Argentina, muito provavelmente, nem teria passado das oitavas de final, tal como o patético Brasil.

 


 

QUANDO O 4-4-2 NÃO EXPLICA NADA 

Os dois times, sem dúvida, jogaram num 4-4-2. Mas, se ambos utilizaram o mesmo esquema, por que um dominou completamente a partida, controlou a posse de bola e o território, criou inúmeras oportunidades e marcou apenas um gol, enquanto o outro teve praticamente uma única chance?

 

É justamente por isso que Pep Guardiola escreveu, em seu livro, que esses números são apenas "números de telefone". Eles dizem muito pouco sobre o jogo. O futebol não é definido pelos algarismos da escalação, mas pela forma como os jogadores ocupam os espaços do campo. O desenho tático aparece com maior nitidez quando a equipe está defendendo. Foi assim que Espanha e Argentina se organizaram: ambas defendiam em um 4-4-2, modelo consagrado por Arrigo Sacchi, o treinador que respondeu certa vez, quando questionado sobre nunca ter sido jogador, que não era preciso ser cavalo para ser jóquei.

 


 

O FUTEBOL DOS ESPAÇOS

A Espanha foi o exemplo perfeito do futebol contemporâneo. Hoje há tanto dinheiro, tecnologia e informação envolvidos que praticamente todas as equipes sabem se defender muito bem. O espaço tornou-se um bem escasso.

 

Por isso, para criar uma oportunidade, é preciso fabricar espaço. A melhor maneira de fazê-lo é movimentando rapidamente a bola, preferencialmente com passes de primeira ou com, no máximo, dois toques. Quanto mais rápida a circulação e as inversões de lado, maiores as chances de encontrar uma brecha.

 

É justamente por isso que propor o jogo se tornou tão difícil.

 

A alternativa é pressionar a saída de bola, recuperar a posse próximo ao gol adversário e atacar com a defesa ainda desorganizada. Essa estratégia exige muito mais reação do que abstração. Foi o que a Argentina tentou fazer durante boa parte da partida, mas sequer conseguiu executar com eficiência.

 


 

DOIS LANCES QUE EXPLICAM O FUTEBOL MODERNO

Dois momentos simbolizam essa transformação.

 

No primeiro, a Espanha perdeu a bola em uma saída de jogo e entregou um contra-ataque para Lionel Messi. O goleiro espanhol, extremamente adiantado e consciente da perda de velocidade de um jogador genial que se aproxima dos quarenta anos, saiu da área para interceptar a jogada. Hoje o goleiro atua quase como um jogador de linha, exatamente como ocorre no futsal: participa da construção, recebe passes e cobre um enorme espaço às costas da defesa.

 

O segundo exemplo está nos laterais Pedro Porro e Cucurella. Talvez nenhuma posição tenha mudado tanto quanto a de lateral. Já não existe aquele jogador cuja única função era chegar à linha de fundo e cruzar, como Cafu fazia com excelência.

 

Pedro Porro alternava constantemente entre a linha dos zagueiros e o meio-campo, aproximando-se de Rodri. E Rodri, para mim, é o melhor volante organizador que já vi exercer essa função, herdeiro de uma tradição espanhola representada por Sergio Busquets e Xabi Alonso.

 

Cucurella fazia movimento semelhante. Dependendo da posição da bola, aparecia como terceiro zagueiro ou como um verdadeiro meio-campista, oferecendo superioridade numérica na região mais importante do campo. É justamente por isso que a Espanha encontra tantas linhas de passe e controla o jogo com tanta naturalidade.

 

O meio-campo é para o futebol o que as trincheiras são para a guerra. É ali que a maioria das partidas continua sendo decidida.

 


 

O FIM DO LATERAL CLÁSSICO

Não me lembro de ver, durante toda a partida, Pedro Porro ou Cucurella chegando repetidamente à linha de fundo para cruzar. Essa função pertence hoje aos pontas. Foi Nico Williams quem construiu a jogada do gol, enquanto Lamine Ia mal… apesar de uma atuação discreta, permaneceu responsável por dar amplitude ao ataque.

 

Apesar do trocadilho infame, fica a pergunta: o lateral ainda existe?

 

É evidente que ele continua precisando saber defender. Mas, ofensivamente, sua função já não é percorrer o corredor para cruzar. Espera-se que participe da construção, da organização e do controle do meio-campo. Por isso, talvez a posição de lateral seja justamente a que mais perdeu seu significado original no futebol moderno.

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 19/07/2026
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