O CAPITALISMO MATOU UMA PAIXÃO NACIONAL

A final da Copa do Mundo foi disputada sob um calor nordestial em Nova York, em um estádio sem cobertura e num horário proibitivo para a prática do futebol.
O mesmo MetLife Stadium possui uma estrutura semelhante àquela que foi negada ao Morumbi durante a escolha das sedes da Copa de 2014, sob a justificativa de que seus vestiários ficavam atrás do estádio.
O resultado todos conhecem: o Itaquerão acabou sendo construído com dinheiro público. É apenas mais um exemplo de como o capital é capaz de remodelar uma paixão nacional conforme seus próprios interesses.
Na disputa pelo terceiro lugar, França e Inglaterra protagonizaram um jogo de dez gols. Um placar lúdico e bailarino, como diria Nelson Rodrigues. Mas faltava justamente aquilo sem o qual o futebol deixa de existir: a competitividade. Era um placar de videogame.
O principal simulador de futebol da atualidade, o FC, perdeu quase toda a semelhança com o esporte real.
Cada vez menos se parece com futebol e cada vez mais com um fliperama, um jogo de luta como Street Fighter, em que vence quem domina melhor os golpes especiais.
No caso do FC, esses golpes assumem a forma de dribles impossíveis, finalizações irreais e combinações de comandos que lembram superpoderes de personagens dos X-Men.
Há ainda os jogadores que repetem incessantemente os mesmos movimentos, como os apelões que venciam qualquer partida apenas aplicando rasteiras no fliperama.
A própria Electronic Arts parece reconhecer esse problema ao criar o modo Authentic, cuja cadência procura aproximar-se mais do futebol verdadeiro. O curioso é que isso evidencia justamente o problema do modo competitivo tradicional: ele é um jogo de luta fantasiado de futebol.
Não é raro assistir a partidas em que um jogador domina a posse de bola, controla o território, troca passes com mais de noventa por cento de aproveitamento e, ainda assim, perde para alguém que mal toca na bola, mas conhece meia dúzia de comandos especiais. Para vencer, muitos jogadores passaram a rejeitar justamente aquilo que caracteriza o futebol: a circulação da bola. Em vez de reproduzirem o estilo da Espanha, preferem explorar habilidades inexistentes na realidade, velocidades desumanas e mecânicas artificiais. O ludismo do futebol desaparece em nome da vitória.
Até quem entende pouco de futebol, mas conhece um mínimo de estatística, percebe a aberração.


o mapa de calor exemplifico como é o futebol em linha reta.


O jogo recompensa estratégias incompatíveis com aquilo que seus próprios números indicam como superior. Não é apenas uma escolha de design: é um modelo de negócios.

O modo Ultimate Team talvez seja seu exemplo mais acabado. Se o álbum de figurinhas da Copa já fascina adultos há décadas, imagine quando essas figurinhas deixam de ser apenas objetos de coleção e passam também a conceder vantagens competitivas. Quanto mais rara a carta, maiores as chances de vitória. E quanto maior a chance de vitória, maior o incentivo para gastar dinheiro.
O pensamento abstrato, a criatividade, a construção coletiva da jogada e a beleza do futebol cedem espaço a uma lógica de consumo permanente. Vence menos quem joga melhor e mais quem possui as cartas certas ou domina os atalhos do sistema.
O conservadorismo, como costumo dizer, reage; dificilmente cria. Não por acaso chamamos de reacionário aquele que apenas responde ao movimento da história. Curiosamente, o capitalismo faz algo semelhante quando transforma uma manifestação cultural em mercadoria: deixa de produzir futebol para produzir mecanismos de monetização.
O resultado é que o esporte continua existindo apenas na aparência. O jogo permanece, mas sua lógica muda. Aos poucos, o futebol deixa de ser uma paixão popular para tornar-se uma plataforma de consumo. É assim que o capital, lentamente, mata uma paixão nacional.