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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

QUEM VÊ CARA VÊ, SIM, CORAÇÃO.

 



 

O PRECONCEITO COMO ECONOMIA DA PERCEPÇÃO

Vendo vídeos no YouTube sobre EDC, ou Every Day Carry — expressão que designa aquilo que a pessoa leva consigo no dia a dia, os objetos que fazem parte da sua rotina e carrega na mochila ou na bolsa — percebi que até isso foi transformado em mercadoria para o algoritmo. Ainda assim, gosto desse tipo de conteúdo porque ele me dá ideias sobre tecnologia, tendências e maneiras de adaptá-las ao meu gosto e à minha realidade.

 

O curioso é que há canais em que basta olhar a foto de perfil para eu já saber exatamente o que esperar. É o que chamam de preconceito. E, curiosamente, ele costuma se confirmar. Os estereótipos existem porque funcionam, ao menos como uma economia inicial da percepção. Eles nos fazem evitar inúmeros problemas, desde assaltos e assédios até vendedores da Avon ou testemunhas de Jeová.

 


 

O CONTEÚDO QUE FALTA

É impressionante como alguns EDCs de mauricinhos janotas exibem tudo o que há de mais moderno: computadores, tablets, câmeras, mochilas, óculos, videogames portáteis... mas nenhum livro, nenhum leitor digital, nenhum objeto ligado à leitura. Claro, seria peso demais para algo que não usam para nada.

 

Afinal, para que servem livros, palavras e ideias? E para que serve escrever? São criadores de conteúdo sem conteúdo e, muitas vezes, sem criatividade.

 

Não é possível que tenhamos normalizado a falta de leitura no Brasil. Sobre escrita nem vale falar, pois escrever é um passo além da leitura: é fazer alguma coisa com aquilo que se leu.

 

Segundo dados da Fundação Itaú, o Brasil lê cada vez menos. Hoje, 53% dos brasileiros não leram sequer um livro nos três meses anteriores ao levantamento. A média nacional caiu para 3,96 livros por ano, abaixo dos 4,95 registrados em 2019.

 

O principal obstáculo alegado pelos leitores é a falta de tempo. Entre os não leitores, a razão é mais simples — e muito mais grave: simplesmente não gostam de ler.

 


 

QUEM VÊ CARA VÊ, TAMBÉM, O ESPÍRITO

Ora, o que pode sair da boca de alguém assim? Muitas vezes, sua falta de conteúdo acompanha sua própria aparência. Por isso, penso que quem vê cara vê, sim, não apenas coração, mas também o espírito da pessoa.

 

Nas minhas caminhadas, observo transeuntes conversando. É impressionante como, pelo timbre da voz, pelo modo de se expressar, já é possível formar uma ideia bastante precisa do tipo de pessoa que está falando. Sua vulgaridade ou refinamento, sua agressividade pela forma como gesticula, como se veste, pelas gírias que emprega, pela maneira como massacra os plurais, pela quantidade de palavrões que utiliza. Há conversas das quais simplesmente não se tira nada.

 

Ao contrário, alguém pode ouvir um dos meus áudios publicados no Recanto das Letras e, sem jamais ter me visto, formar uma imagem relativamente fiel da minha aparência, dos meus hábitos e, sobretudo, do meu conteúdo. A linguagem nunca revela tudo, mas quase sempre revela muito mais do que gostaríamos.

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 19/07/2026
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