A ÚNICA FÉ EM QUE ACREDITO

Fé é acreditar em algo que não pode ser comprovado. O problema não está na fé em si, mas em depositá-la naquilo que nos afasta da única existência comprovada: a vida na Terra. Em vez de voltar nosso olhar para ela, criam-se mundos imaginários, os chamados além-mundos.
Curiosamente, essa capacidade de criar ficções foi uma das maiores conquistas da humanidade. Inventar mundos imaginários, narrativas e até entidades fictícias — como as pessoas jurídicas — permitiu que os seres humanos se organizassem em grupos cada vez maiores. Isso só foi possível graças à evolução da linguagem, durante o que os historiadores chamam de Revolução Cognitiva.
Sem narrativas compartilhadas, nossa cooperação estaria limitada a pequenos grupos, determinados principalmente pelos vínculos biológicos. Com elas, passamos a reunir milhares e até milhões de pessoas em torno da mesma história.
Assim nasceram ideologias, religiões, Estados, empresas e o próprio dinheiro. O socialismo, o cristianismo, a Apple — enquanto pessoa jurídica — e o dinheiro existem porque milhões de pessoas acreditam nas mesmas ficções coletivas e agem como se elas fossem reais.
Um ditador, por exemplo, dificilmente convenceria milhões de pessoas apenas pela força de suas palavras. O que mobiliza multidões é a crença compartilhada em uma mesma narrativa.
Porém, existe um tipo de fé que se volta justamente para a vida. É a fé de quem confia que suas ações presentes produzirão efeitos futuros. Não é a crença em um além-mundo, mas na potência do próprio agir.
É a certeza de quem acredita que uma boa dieta, uma rotina disciplinada e um treino consistente o levarão aos seus objetivos estéticos. É a confiança de que um determinado modo de viver colherá seus frutos mais adiante. É acreditar que estudos, leituras aparentemente anodinas, anotações e registros, mesmo quando hoje parecem inúteis, um dia revelarão seu sentido.
O professor Villa costuma contar que sua mãe recortava todas as matérias em que ele aparecia na imprensa. As minhas estão reunidas de outra forma: mais de 2.800 textos concentrados em um único lugar. Quem quiser me conhecer encontrará ali o testemunho de quem fui — ou de quem não fui. Escrever também é uma forma de apostar no futuro.
Os americanos chamam isso de trust the process: acreditar no processo. No fundo, trata-se apenas de uma fé voltada para a própria vida. A convicção de que ações bem orientadas no presente têm uma alta probabilidade de produzir bons resultados no futuro.