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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

O EMPREENDEDOR DO PRÓPRIO CORPO

 


 


 

O CORPO COMO CAPITAL

A profissão mais honesta — e talvez a mais difícil do mundo, justamente por ser a mais liberal de todas — é a de empreendedor de si mesmo, a de empreendedor do próprio corpo.

Nietzsche já dizia que há mais sabedoria em nosso corpo do que em nossa melhor sabedoria e pergunta:

 

"E quem sabe por que teu corpo necessita da tua melhor sabedoria?"

 

No capítulo Dos Desprezadores do Corpo, de Assim Falou Zaratustra, ele critica aqueles que desconfiam do corpo, que acreditam em uma alma separada dele ou afirmam que o corpo apenas "possui" uma alma.

 

Para Nietzsche, ocorre justamente o contrário: a alma é uma função do corpo. Somos corpo inteiramente. A razão não passa de um instrumento produzido por ele. Se é assim, um corpo doente tende a produzir juízos, valores e pensamentos igualmente doentes.

 

O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade dotada de um único sentido. Diferentes versões de nós mesmos emergem conforme os afetos e as relações que nosso corpo estabelece com o mundo. Nesse sentido, talvez possamos distinguir dois tipos de pessoas: os empreendedores do próprio corpo e os empregados do próprio corpo; aqueles que governam o corpo e aqueles que vivem subordinados a ele.

 


 

TRABALHAR O CORPO TAMBÉM É TRABALHO

Tomemos como exemplo o professor Villa. Ele costuma chamar os preguiçosos, como Bolsonaro, de "mandriões", uma palavra elegante para designar um preguiçoso.

Acredito que ninguém em sã consciência — a menos que seja um completo idiota — considere o professor Villa preguiçoso. Afinal, ele passa os dias lendo, escrevendo, estudando e produzindo discursos. Permanece sentado durante horas, num ritmo tão intenso que chegou a desenvolver uma doença grave que o afastou de suas atividades por alguns dias. É o retrato clássico de um workaholic.

 

Mas em que, essencialmente, ele difere de um lavrador?

 

O que o lavrador faz com a foice, Villa faz com o intelecto. Ambos trabalham intensamente; apenas transformam matérias diferentes. Um modifica a terra, o outro modifica ideias. Até a velocidade de sua fala parece denunciar esse ritmo incessante, sempre ligado no 220.

 

Isso nos leva a uma pergunta: chamamos alguém de preguiçoso porque ele evita o esforço ou porque sua atividade não participa diretamente da engrenagem econômica?

 

E existe empreendimento mais radical do que cuidar do próprio corpo?

 

A negligência do próprio Villa, nesse aspecto, não seria também uma forma de desprezar o corpo, justamente aquilo que Nietzsche critica? Não haveria uma espécie de preguiça escondida no excesso de trabalho intelectual quando ele produz doenças evitáveis? E será que repetir indefinidamente as mesmas tarefas, por mais nobres que sejam, não pode ser também uma forma de acomodação?

 


 

OS DIVIDENDOS DO PRÓPRIO CORPO

Da mesma forma, alguém pode, equivocadamente, considerar que eu seja vagabundo ou preguiçoso. Em média, passo cerca de quatro horas por dia trabalhando sobre meu próprio corpo, entre musculação e cardio.

 

Esse investimento, porém, seria incompleto se não dedicasse outras tantas horas ao cultivo das ideias, por meio da leitura, da escrita criativa e do consumo de conteúdo.

 

Mas não porque uma atividade alimenta o espírito e a outra alimenta o corpo. Essa separação não faz sentido. Quem pensa não é um espírito desencarnado; quem pensa é o corpo. Razão e espírito são expressões dele.

 

Treino o corpo para produzir pensamentos mais lúcidos, ideias mais criativas e afetos mais potentes. Da mesma forma que o alimento com boa comida, alimento-o também com boas leituras, arte e conhecimento.

 

Esse talvez seja o trabalho mais árduo de todos. Não reconhece finais de semana, férias nem aposentadoria. Não oferece salário, carteira assinada ou décimo terceiro.

 

Ainda assim, é o investimento que produz os maiores dividendos.

 

Porque um corpo bem cultivado acumula, ao longo dos anos, lucros que nenhuma aplicação financeira consegue oferecer: mais saúde, mais clareza, mais autonomia, mais potência para viver.

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 18/07/2026
Alterado em 18/07/2026
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