O MASSACRE DA ARGENTINA NAS MALVINAS

Antes do melhor jogo dessa Copa, Argentina e Cabo Verde, eu estava na estação perto de casa comprando um cachorro-quente duplo paulista, claro, com muito, mas muito purê mesmo e batata palha, porque, assim como Charlinho, o garoto que só queria estudar, dos Hermes e Renato, eu gosto muito de batata — mais do que de estudar.
Porque eu estou de dieta, né.
O jogo já havia começado quando passou uma daquelas coroas evangélicas de saia, para quem parece ser mandamento não pintar os cabelos brancos, nem sequer arrumá-los e, quanto menos cuidar da aparência, melhor. Ela soltou:
— Essa besteira de Copa do Mundo...
Bom, dali ela foi para a igreja. Eu fui assistir à virada da Argentina por 3 a 2, na prorrogação, com um golaço de Cabo Verde.
Quem teve a experiência de ascese mais transcendente, hein?
A comparação entre futebol e religião não é ocasional, porque, para muitos, futebol é religião. Mas ambas são narrativas, histórias, invenções humanas.
Como diz Yuval Noah Harari, a grande revolução do Homo sapiens em relação às demais espécies foi a capacidade de reunir pessoas em torno de uma fogueira e inventar histórias e convenções.
A partir do momento em que uma história passa a ser compartilhada por mais de uma pessoa, temos um grupo, uma comunidade ou uma sociedade.
O futebol e a religião são formados por pessoas que aceitam a mesma convenção.
Por exemplo: que vence uma partida quem coloca um objeto esférico mais vezes dentro do gol.
E, mais recentemente, o futebol passou a ter quatro tempos, parecendo cada vez mais o basquete, por causa das duas pausas para hidratação.
Na partida de ontem, Inglaterra contra Argentina, foi justamente após a última parada para hidratação que os argentinos massacraram os ingleses na Guerra das Malvinas — a revanche — e, antes disso, dizimaram todo o exército de jogadores ingleses.
Continuando com as metáforas bélicas, a Inglaterra, que ironicamente tem um técnico alemão, pareceu vingar a derrota de Hitler para os ingleses com as alterações que fez, à la portuguesa de Abel Ferreira, dobrando laterais e empilhando zagueiros.
Anteriormente, outro treinador do Eixo comandou os ingleses: o italiano Fabio Capello.
Como se vê, Inglaterra e Eixo não costumam dar muito certo nem na guerra nem no futebol.
Quem acha que futebol é só uma invenção humana e, por isso, não significa nada, certamente não entende nem o esporte nem a história dos seres humanos.
Somos uma espécie que atribui valor às convenções.
E, para nós, disputar um território ou disputar a taça de uma Copa do Mundo pode mobilizar exatamente as mesmas paixões.